campo na região de Budapeste. Visto do comboio
Como primeira etapa da minha viagem, eu podia perfeitamente ter escolhido Viena, Bucareste, Belgrado... Mas queria começar por uma cidade que já conhecesse - entende-se: onde já estive.
Eis-me finalmente no avião! Descubro que os hospedeiros de bordo não falam Português, e o Inglês deles tem um sotaque incompreensível. Uma delas compensou pelo seu sorriso, silhuetas femininas e feições eslavas - são tão exóticas as eslavas… Voltando à Budapeste… Ou às húngaras, pelo menos… Não é possível traçar o fenótipo da mulher húngara (nem do homem). Não têm etnia nenhuma. Ah não? E os magyar? Ah… os magyar… Sim, esse povo oriundo das estepes asiáticas, das mesmas estepes de onde surgiram Átila e Gengis Khan. Os mongóis têm os olhos em bico. As húngaras? Nem por isso. O que terá acontecido aos magyars que se instalaram nas planícies férteis do Danúbio?
São os mesmos. Só que misturados com outros povos. Pergunto-me se haverá algum país com um DNA tão rico, tão diverso.
Porém, arrisco-me quase a dizer que não existe humano mais europeu que o homem e a mulher húngara. A explicação é a seguinte: a Hungria é uma planície rodeada de montanhas. Raras foram as vezes em que conseguiram defender-se dos invasores mais fortes. O território já esteve sob soberania otomana, austríaca… A Hungria é um cruzamento no centro da Europa. É um povo asiático que se instalou em nossas terras há mais de mil anos e tornou-se mais europeu que a própria Europa.
E o sangue dos húngaros contém um pouco de latino, de eslavo, de saxónico, de turco…
Não vá o leitor eventualmente pouco familiarizado com esse povo da Europa central que merece mais atenção, pensar que eles não têm cultura própria, não pense que são o misto de tudo o que foi citado. Nada estaria mais errado. A Hungria é a Hungria. A sua língua é quase o único reduto na Europa, juntamente com o Finlandês, o Estônio e o Basco que não são línguas arianas / indo-europeias. Quando estavam sob ocupação de uma potência estrangeira, os húngaros conseguiram sempre manter a sua cultura viva. Que o diga o império Austro-Húngaro! Que em boa verdade é apenas austríaco, ou melhor, da família dos Habsburgos – para que os húngaros não se revoltassem, acrescentam Hungria ao nome do império.
Continuo no avião… essa malta fala mesmo mal Inglês. E os meus rudimentares conhecimentos de magyar não me estão a ajudar. Não percebo patavina do que essa malta anda a falar…
Bem, o avião começa a descer: há nevoeiro. Vejo o avião passar de Buda para Peste. Percebo-o pelas pontes iluminadas sobre o Danúbio. Eis aquela ilha que separa as duas margens… Ei, senhor piloto! não te importas de parar? O centro de Budapeste fica para trás… Infelizmente o aeroporto fica a vinte e tal quilómetros da cidade. Deu para ver florestas cobertas de neve mesmo antes de aterrarmos.
E agora? Bati palmas no avião. Mas… e agora? É 1h da manhã. Apanho um transporte para o centro e durmo umas horas? Não tenho sono. Escrevemos e depois logo se vê.
A malta aqui não anda muito animada. Refiro-me aos que escolheram passar a noite no aeroporto. Falei com a rapariga que cuida da limpeza. Ainda bem que estão cá os empregados para animar esse aeroporto. Acho que apesar de tudo vou ficar por cá. A temperatura lá fora é de -2º. O inverno de Budapeste não é pêra doce. (acho que é a primeira vez da minha vida que uso essa expressão que, talvez, por eu ser meio-francês, sempre achei estúpida).
Não quero alongar-me sobre a cara das pessoas do aeroporto; suponho que nenhum deles seja daqui. Mas que parece que estão num cemitério, isso parece! Eis a minha “amiga” que veio varrer o chão por baixo dos nossos bancos. Essa pelo menos sorri. Apesar de estar a trabalhar a essas horas… Conheço relativamente bem o povo da Hungria. São festivos, sorridentes e hospitaleiros: na condição de os respeitarem, de procurar saber um pouco mais da vida deles, de fazer um esforço para dizer Jó napot em vez de Good morning.
E a cidade em si? Já a conheço, caro leitor. E hei-de descrever a lindíssima cidade de Budapeste amanhã, principalmente alguns dos lugares que escapam à maioria dos turistas.
Por ora, creio que é tempo de descansar.
Escrevi um pouco no meu caderno pessoal; acabei por tirar mais fotos do que escrever. As minhas fotos são péssimas, problema do fotógrafo pois encontrei paisagens lindíssimas. Sou grato por ter visto Budapeste coberta de neve.
Caminhei ao longo da margem do Danúbio dezenas de quilómetros. A neve obrigava a um passo mais atento, ainda assim, não me recordava que o inverno podia ser tão bonito. Parecia que as margens da artéria da Europa tinham ganhado em Budapeste praias brancas. As pessoas daqui queixavam-se que a neve não é prática para caminhar ou andar de carro. Eu não senti frio nenhum, raramente sinto. E os -4º que cheguei a presenciar devem equivaler a uns 0º em Portugal.
Não fui às termas – já tinha ido em 2019. Tinha gostado, mas imagino (não confirmei) que seja uma atividade mais comum no verão do que no inverno.
De resto, recomendo o Museu Nacional Húngaro. A relação com a história é mais direta e menos cerimonial. As salas convidam à atenção. A narrativa nacional surge organizada, consciente das suas fraturas, sem dramatizações desnecessárias. É um espaço que pede tempo e alguma sobriedade ao visitante.
O Parlamento de Budapeste é majestoso, vale a pena pelo menos olhá-lo de perto, sentado num banco dos jardins. As Halles de Budapeste, eram muito vivas apesar do frio. O mercado reúne cheiros, vozes e uma energia prática que contrasta com a solenidade dos edifícios oficiais. Entre bancas de produtos simples e vendedores atentos, sente-se uma cidade que funciona. Muito embora, verdade seja dita, a qualidade dos legumes e da fruta deixasse a desejar. Ainda assim, a comida é boa – especialmente para quem gostar de comidas pesadas.
Outra coisa que me chamou a atenção é a forte presença chinesa de restaurantes, lojas, pessoas, bancos, até mesmo indicações rodoviárias!
Por acaso, eu gosto de falar das passadeiras e das casas de banho públicas. Acho que diz bastante sobre a mentalidade de um povo. Urinar nos jardins é proibido na Hungria; quer dizer; não é tolerado, é rigorosamente proibido. Nada contra se houvesse casas de banho públicas, não obstante, quer nas estações de comboio, quer nos centros comerciais, quer nas escassas casas de banho “públicas” dos jardins, não se pode entrar sem pagar. Até mesmo no McDonald’s tive de comprar uma colher de plástico para usufruir da casa de banho. Outra coisa que me mete confusão, a mim que sou profundamente latino, são as passadeiras. O trânsito é demasiado organizado, não me lembro de ouvir alguém buzinar, ninguém atravessa a pé as passadeiras quando o sinal marca o vermelho. E quando está verde, ninguém verifica se não haverá na estrada vestígios de algum maluco que possa atropelar passageiros. É tudo muito automático, demasiado robótico para o meu sangue latino. A palavra robótico vem do checo e significa trabalho. Digo-o porque tenciono voltar a falar nela em algum capítulo ad hoc.
Contrariamente ao que muita gente pensa, os húngaros são hospitaleiros e prestáveis para os turistas. Basta por isso dizer algumas palavras na inimitável língua Magyar. Recordo-me porém, de uma senhora no bar ter arredondado a minha despesa de 920 Fl para 1000 Fl. São cerca de 25 cêntimos de euro. Duvido que o teria feito a um local. Não é a norma, mas também não creio que aconteça apenas uma vez em cem.
Encontro-me agora no comboio, parto directamente para Arad, na Transilvânia. Conheço relativamente bem as terras de Drácula na Transilvânia profunda. Arad fica mais na fronteira. Mas falta-me acabar a minha descrição de Budapeste.
Oh, a neve subitamente desapareceu dos meus olhos. O comboio está a chegar a Békéscsaba, cidade pequena e medieval que fica perto da Roménia. Não, não vejo mais o branco da neve a cobrir as ervas do inverno na Panónia. Adeus.
Disse há pouco que os húngaros são prestáveis. É certamente dos povos europeus que menos falam Inglês, o que pessoalmente me agrada, muitos arranham o Alemão ou mesmo o Francês – fazem o que podem para ajudar o turista. Podem não parecer muito comunicativos mas têm o sorriso fácil.
Sugiro ao leitor que pensa em visitar Budapeste, que desfrute de um bar pequeno, acolhedor e com decoração simples, paredes de tijolo exposto, madeira envelhecida e pintura fosca em tons neutros como bege claro, branco ou cinza suave, criando um ambiente aconchegante e rústico. Em muitos deles, para entrar, é preciso descer escadas. E recomendo que coma um goulash num local rústico.
Em resumo, o que mais me marcou foi sem dúvida a neve. Podia ter andado de patins nos jardins amplos de Peste.
Outrora, Buda e Peste eram duas. Separadas pelo Danúbio, cresciam frente a frente como espelhos distintos: Buda, mais antiga e elevada, guardava colinas, castelos e a memória medieval; Peste, plana e expansiva, pulsava com comércio, ruas largas e uma energia moderna. O rio não era apenas uma fronteira física, mas também simbólica – entre tradição e progresso, recolhimento e movimento.
A unificação, no século XIX, não apagou essa dualidade; antes, deu-lhe um novo sentido. Ao tornarem-se Budapeste, as duas cidades aprenderam a coexistir numa tensão criativa. O Danúbio passou de divisor a eixo, costurando identidades diferentes numa só urbe. Ainda assim, de grosso modo, Peste é mais urbana, comercial, cosmopolita e festiva; enquanto Buda guarda um ar mais magyar. Dir-se-ia, brincando com as palavras, que Buda foi santa e o comércio das planícies de Pest trouxe riqueza a uma terra que só conhecia as dificuldades da natureza. No entanto, Buda nada tem a ver com o profeta do budismo, nem tão pouco Peste remete para a corrupção. Trata-se de uma mera coincidência. Curiosa. Mas ainda assim, uma mera coincidência; se as coincidências existirem. Apesar dos principais monumentos estatais terem sido erguidos na margem oeste, a de Buda, mantenho a impressão que foi Peste que “corrompeu” Buda e que esta última “emancipou” Peste para formar uma cidade europeia onde o sagrado e o profano vivem juntos.
Roménia. Não me agrada deixar para trás a Hungria. Mas, Ah! Finalmente um bafo caótico do mundo latino! São 15h locais, dia 26 de Janeiro de 2025.










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