Saturday, 31 January 2026

Prólogo


                                                Cervejas artesanais ucrânianas (de Lviv) num bar em Lisboa


 Não existe planeta B. E se houver, espero bem que vista outro nome. Namek, Tatooine… algo do género. Nunca ouvi ninguém chamar planeta A ao referir-se à nossa querida Terra. Já que não tenho como ir a Marte, vou viajar por terras férteis. Sempre há-de ser mais divertido do que procurar bocados de aminoácidos em calhaus.


Preciso de um título. Antes de mais, o título é provisório e agradeço qualquer sugestão que o leitor queira dar. Uma vez que não me decidi se ia escrever maioritariamente em Português ou em Francês (embora me tenha apetecido quase exclusivamente escrever em Português), julgo que o título não deve ser nem numa nem na outra língua. Podia, é verdade, ser uma palavra de cada. Vamos lá. Pensei em Peregrinatio pros Ανατολή (Anatólia). Que título mais pobremente académico, não é verdade? Conjuga duas línguas extintas, mas nem sequer sai da Europa. 

Nã… não quero ser chato e tenho uma outra ideia. Já agora, se chamamos “Anatólia” à parte asiática da Turquia, é porque, ainda hoje em dia, em Grego, Anatólia quer dizer leste. 

Peregrinação ao leste! O título faz todo o sentido, é verdade, ainda assim, em Português, perde a mística toda. E relativamente a usar um título Latim e Grego… sinceramente, quero agradar ao máximo número de leitores possíveis.

Por isso, pensei em Peregrinatio Akatsuki


A minha aventura começa em Tomar. A sempiterna cidade templária. Vou como um missionário para Lisboa, cidade onde vivi dos meus vinte aos trinta. Mas faço primeiro uma curta escala em Sintra, já que a nossa cidade romântica fica a oeste de Lisboa, porque não começar a narração em Sintra? 



Sintra é bem conhecida dos portugueses. Trata-se de uma cidade pequena que por si só justifica a existência da palavra mistério no nosso dicionário  (muito embora eu preferisse escrever mysterio, como outrora se escrevia). Depois de ter passado o fim de semana com amigos - bem-haja David e Mariana pela companhia - bebo um café numa esplanada do concelho de Sintra. Vejo no horizonte os palácios que rodeiam Sintra. Parecem ter sido erguidos com pedras de sonhos, e aquelas árvores da serra, que o leitor certamente conhece, são mais presença do que mero cenário. O Palácio da Pena sempre me pareceu um gesto romântico exagerado: um castelo inútil do ponto de vista militar; mas com toda a simbologia medieval do amor cortês atribuída aos trovadores. Podia perfeitamente ser um refúgio rural para os lisboetas… Os lisboetas, esses, nunca vão para lado nenhum. Hoje em dia, Sintra tem mais turistas do que moradores; fala-se mais Inglês do que Português e duvido que este último seja o segundo idioma mais usado. De resto, Sintra tem o seu próprio clima: muito nevoeiro e caprichoso. Se D.Sebastião estivesse vivo estaria seguramente em Sintra. E o cabo da Roca, “onde o mar começa e a terra se acaba” é mesmo ali, do outro lado da serra. Pois aqui começo a minha viagem, onde o mar termina e a terra começa. E concluirei essa mesma viagem quando encontrar outro oceano. Num país que ao meu ver é tão oriental que chega a ser mais ocidental que muitos países orientais. Da mesma forma que Portugal é tão ocidental que chega a ser mais oriental que muitos países ocidentais.

Não pretendo ser frouxamente poético. Se de facto tenho essa impressão do país em questão, colocá-la-ei à prova: averiguá-la ocularmente ou refutá-la.



Lisboa! Vi o pôr do sol do alto do Parque Eduardo VII, se a terra é redonda, hei-de voltar a encontrar o Sol se eu caminhar para ocidente. Já é de noite e é segunda-feira: a minha noite favorita para socializar. Não quero maçar o leitor com uma cidade que já conhece. Ainda assim, darei as minhas actualizadas impressões da nossa capital que amo ainda mais do que odeio, que guardo no coração quiçá ainda mais do que Paris e que certamente nunca me será indiferente.


Conheço já o percurso que seguirei para chegar ao Japão. Para quem ainda não tinha percebido, o meu destino é o país onde o Sol nasce. Já que não tenho pachorra para ir por terra de Lisboa, apanho um voo para Budapeste. Todavia, uma vez que nessas viagens é bem-vindo que haja imprevistos, tanto para mim como para o suspense do leitor, prefiro não revelar nada. Sabe-se porém que me é proibido voltar a apanhar o avião (depois de chegar a Budapeste) e que hei-de chegar, de uma forma ou outra, ao país onde o sol nasce. 

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