Tuesday, 7 April 2026

Etapa 11 - À caminho do Cáucaso

 Durante o almoço, anuncio finalmente a minha decisão de deixar o Curdistão à Mesh e Huseyin. Se precisassem mesmo de mim, teria ficado mais um dia ou dois, mas não é o caso. Agradeço-lhes a compreensão.


Na véspera, falei com Remo, um aventureiro suíço que faz uma viagem parecida com a minha. Ele pretende igualmente seguir para a Geórgia. E partiu logo de manhã.


A despedida foi mais difícil do que esperava. Abraços rápidos, promessas vagas de reencontro. Mardin não é uma cidade onde me veja a viver, mas é, sem dúvida, uma cidade onde quero voltar. 


Ao final da tarde, passeio uma última vez pelas ruas tortas de Mardin que, julgava eu, haviam de me levar à estação de autocarro. Olho uma última vez para a planície da Mesopotâmia. Que contraste entre as placas tectónicas da Arábia e da Anatólia!


Perdi o primeiro autocarro por causa de indicações erradas do Google Maps. Nada de dramático — mas ainda assim, gostaria de ter jantado em Diyarbakir, capital oficiosa curda e destino de tantos povos — queria ver os seus museus, perder-me entre as suas praças. Tenho gente que se preocupa comigo e se lhes disse que rumava hoje para a Geórgia, não é para pernoitar na cidade turca em que considero menos improvável haver uma desestabilização política, um atentado, um míssil perdido.


Fiquei duas horas à espera do seguinte, sentado na estação, sem grande coisa para fazer, aproveitei para escrever o capítulo anterior.



O autocarro arrancou já de noite. A meio da viagem, fomos mandados parar por forças armadas. Pediram-me para abrir a mochila. Mostrei o suficiente para que percebessem que não ocultava nenhuma kalashnikov. Com outros passageiros foram mais minuciosos. Finalmente, prosseguimos. Chegámos a Diyarbakir às 0h02, sendo que o último autocarro para Erzurum partia às 23h59. Não sei bem como, o certo é que consegui entrar no autocarro sem bilhete. Começa a parecer-me que sair da Turquia será uma odisseia.


Ninguém, rigorosamente ninguém falava ou sequer arranhava o inglês. Tanto me faz. Adormeci. A meio caminho acordaram-me para que eu pudesse finalmente pagar o bilhete - não o comprara antes porque pela internet já não era possível, visto ter chegado depois das 23h59 e, na estação, não aceitavam multibanco. Nesta paragem extensa, algures entre as montanhas da província de Bingöl, ainda fortemente povoada por curdos, procurei levantar dinheiro mas não havia ATM. Quiseram que eu fizesse uma transferência. Aceitei, mas não me sabiam dar todos os dados necessários. Sugeri pagar o jantar. Tudo isso foi feito mais com gestos do que com palavras, pois a dada altura, um sujeito que trabalhava na rodoviária chamou um colega que, esperava eu, falava inglês, mas falou-me em turco — deixando-me sem perceber porque tinha sido chamado, se não falava inglês. Irritaram-se um pouco, pensaram que eu não queria pagar ou que não tinha dinheiro. Como eu tinha sugerido, paguei o valor do bilhete mais um euro no terminal de multibanco do restaurante da estação e o restaurante devolveu-lhes em notas o que eu devia. 


Seguimos então para Erzurum. O exército manda novamente parar o autocarro. Desta vez, quiseram apenas checar as identificações. Chegámos à estação. Um planalto a dois mil metros de altitude, coberto de neve, rodeado por montanhas severas que por causa dos nove graus negativos não convidavam à contemplação prolongada.








Comprei um bilhete para Hopa  (que se pronuncia como “ó pá”). Tinha duas horas de espera. Infelizmente, como de costume neste país, não existe wi-fi — ou neste caso, diz o telemóvel que existe, mas é preciso introduzir o número de telemóvel para indicar o código enviado por um SMS que nunca chega. Eram cinco da manhã. Várias famílias e viajantes solitários, esperavam como eu por autocarros, resolvi dar uma pequena caminhada para explorar o planalto da região. Deixei as malas sem me preocupar com elas. Várias pessoas me viram antes, é o suficiente para eu não ter de me preocupar se eu me ausentar trinta minutos. Depois de quase um mês na Turquia, cheguei à conclusão que existem ladrões como em qualquer parte do mundo, mas ninguém se atreveria a mexer em coisas que visivelmente não são dele. Aqui, há uma vigilância informal que me deixa tranquilo.





Por onde andará o Remo? À minha frente? Eis o meu autocarro que parte para Hopa, atravessando as montanhas interiores do norte da Turquia. Adormeço quase de imediato antes de acordar horas depois com os meus olhos pousados na natureza que me rodeia. Não conheço café mais eficaz do que a paisagem das montanhas da Anatólia. À minha esquerda os cumes nevados e a rocha macia própria da região, à minha direita a água cristalina do rio. Continuamos em altitude e os meus ouvidos fazem aquele ruído para se adaptar à pressão atmosférica. Por sorte sou quase o único passageiro. Aproveito para caminhar pelo corredor em busca do melhor ângulo para me deliciar com as paisagens. 








Parámos em Atvin. Peço um gözleme mas já não havia. Comi então uma tosta banal, com um toque de especiarias asiáticas. Prosseguimos finalmente até Hopa. Vejo finalmente o mar negro à minha esquerda —  calmo e infinito como um oceano. Estou absolutamente sozinho —  mais o condutor. 








Assim que chegámos a Hopa, dirijo-me a um multibanco para levantar dinheiro, pergunto a uma muçulmana universitária onde posso apanhar um transporte para a fronteira. Entro no autocarro, ou melhor, numa carrinha que tem capacidade para cerca de doze pessoas e levava dezasseis. Chego à fronteira. Instintivamente percebo para onde devo ir para entrar legalmente na Geórgia. Continuo sem saber por onde andará o Remo. Depois de alguma burocracia penetro na Geórgia. Antes mesmo de me aperceber, entro em mais uma carrinha com destino a Batumi. Vejo pelas janelas algumas lojas - escritas no alfabeto deles. Confesso que alimentava a esperança que usassem mais o alfabeto cirílico para quem não souber decifrar o primitivo alfabeto georgiano. 



Desta vez o veículo, pensado para dezasseis pessoas, levava dezessete. Que se lixem o cinto de segurança e as regras de trânsito! Vejo Batumi no horizonte com os seus edifícios soviéticos misturados de gratte-ciel wannabe. Ou gratte-ciel Ryanair


Não sei se tem paragens marcadas ou se simplesmente adivinha quando um passageiro quer sair e outro precisa de entrar. Eu sinto-me confortável, e deixo-me levar até a última paragem que me deixa no centro da cidade e quase à beira-mar.



Caminho uns minutos por uma cidade que me parece capaz de proporcionar episódios insólitos. Por enquanto, entro numa casa de pasto e ligo ao Remo. Ainda está a caminho de Hopa. Ganhei a corrida.







Monday, 6 April 2026

Stage 10 - Kurdistan

 


By late afternoon on this March 7th, it started snowing again in Mardin. I spent the day in the new part of the city, had lunch at the shopping mall, and everything was perfectly normal. No one was talking about the Iranian missile that had fallen a few days earlier. I ask, I insist — they barely respond with more than that. Two days later, another missile fell in Gaziantep province, two hundred kilometers from here. The reaction is the same: almost none.


At the bazaar, the crowd remains. I drunk a tea while watching women select fish with meticulous attention. Life goes on with a naturalness that intrigues me — perhaps because this region has grown accustomed to living with instability.



In the eighties, Turkish Kurdistan saw a bloody war against the government. The atmosphere has never been peaceful, but today I sense no open tension. I haven't witnessed any ethnic arrogance. On the contrary, if someone said something absurd in a public square — say, that one people is superior to another — I can more easily imagine laughter than a confrontation.



The same goes for Islam. We're in the middle of Ramadan. If someone discreetly drinks a beer, it doesn't seem like it would cause a big scandal. Some would disapprove, certainly. But I don't see here an obsession with correcting others' behavior. I might be wrong — but that's the impression I take away.


I feel good in Mardin. For now, I've decided to stay. Not out of courage — perhaps more out of stubbornness. Or simply because I haven't felt enough yet to leave. On top of that, I have a verbal commitment that keeps me in Mardin for a while longer. It's not a formal obligation, but it carries enough weight not to ignore. And Huseyin told me he'd understand if I left, which only strengthens my resolve to stay.


Still, the war doesn't fully leave my mind. I messaged the Iranians I met in Istanbul. I wanted to know if everything was okay with their families.



One Friday night, I wanted to explore some bars. I ended up chatting with Kurds from Van who came here for the weekend. We had a drink in one of Mardin's wine houses. Their city sounds stunning — they spoke of it with such enthusiasm that it almost convinced me to change my plans. We talked about travel, art, relationships. At one point, I asked what they thought of the war. They said Iranians were expected in the coming days. And after that, we went back to trivialities — as if the topic didn't carry enough weight to fill the evening.


Mardin's Library

The next country I want to visit is Georgia. Going through Iran was never in my plans. So, selfishly speaking, the war doesn't bother me. I'd love to visit Iran. Maybe one day — after the regime falls.


The reason is this: I want to avoid countries that require visas as much as possible — I'm not against borders — I just refuse to visit places that put up too many obstacles for travelers.


It seems tourism has been somewhat affected by the region's instability, but the rooms aren't empty. While having tea on a terrace, I asked a hotel employee if there had been cancellations. He said no one canceled, despite a slight drop in demand.


However, on March 13th, a third Iranian missile was intercepted and destroyed over Turkish territory. And it's not as if the intensity of the war in Iran has lessened.


I do a thought experiment, like good scientists do when trying to understand reality: I place myself for a few hours in the mind of the U.S. government. As the reader knows, the Kurdish territory's mountains are today not only in Turkey, but also in Syria, Iraq, and Iran. To destabilize Iran, using Kurds against the current regime seems like an effective strategy to me. At least that's what I'd do — if I were playing Civilization or chess. I found a statement from the U.S. embassy advising its citizens against visiting southeastern Turkey.


If I stopped myself from starting my trip in Ukraine, it's not to end up involved in another conflict that doesn't concern me.


Don't get me wrong: as my friends know, I'm the kind of person who gets excited every time I hear a military march. I like war. I just think you have to have never experienced it to feel that way. The homeland is an incredible thing! But killing or dying for it is an absurdity.


Stay or leave now? I've already decided. I'm leaving — before I start inventing reasons to stay.



Étape 10 - Kurdistan

 

À la fin de l'après-midi de ce 7 mars, il s'est remis à neiger à Mardin. J'ai passé la journée dans la partie moderne de la ville, j'ai déjeuné au centre commercial et tout était parfaitement normal. Personne ne parlait du missile iranien qui était tombé quelques jours plus tôt. Je demande, j'insiste — ils ne me répondent guère plus. Deux jours plus tard, un autre missile est tombé dans la province de Gaziantep, à deux cents kilomètres d'ici. La réaction est la même : presque nulle.




Au bazar, la foule reste dense. Je bois un thé en regardant des femmes choisir le poisson avec une attention méticuleuse. La vie continue avec une naturel qui m'intrigue — peut-être parce que cette région s'est habituée à vivre avec l'instabilité.

Dans les années quatre-vingt, le Kurdistan turc a connu une guerre sanglante contre le gouvernement. Le climat n'a jamais été pacifique, mais aujourd'hui je ne ressens pas de tension ouverte. Je n'ai pas été témoin d'une quelconque arrogance ethnique. Au contraire, si quelqu'un disait quelque chose d'absurde sur une place publique — par exemple, qu'un peuple est supérieur à un autre —, j'imagine plus facilement un éclat de rire qu'une confrontation.


Il en va de même pour l'islam. Nous sommes en plein ramadan. Si quelqu'un boit une bière discrètement, cela ne me semble pas provoquer un grand scandale. Certains désapprouveraient, certes. Mais je ne vois pas ici une obsession à corriger le comportement d'autrui. Je peux me tromper — mais c'est l'impression que j'emporte.


Je me sens bien à Mardin. Pour l'instant, j'ai décidé de rester. Pas par courage — peut-être plus par entêtement. Ou simplement parce que je n'ai pas encore ressenti assez pour partir. En plus, j'ai un engagement verbal qui me retient à Mardin pour un certain temps encore. Ce n'est pas une obligation formelle, mais il a suffisamment de poids pour ne pas l'ignorer. Et Hüseyin m'a dit qu'il comprendrait si je partais, ce qui renforce ma volonté de rester.


Malgré tout, la guerre ne me sort pas complètement de la tête. J'ai envoyé un message aux Iraniens que j'ai rencontrés à Istanbul. Je voulais savoir si tout allait bien pour leurs familles.


Un vendredi soir, j'ai voulu explorer quelques bars. J'ai fini par discuter avec des Kurdes de Van venus passer le week-end ici. Nous avons bu un verre dans une des maisons de vin de Mardin. Leur ville semble magnifique — ils en ont parlé avec un enthousiasme qui m'a presque convaincu de changer mes plans. Nous avons parlé de voyages, d'art, de relations. À un moment, j'ai fini par leur demander ce qu'ils pensaient de la guerre. Ils m'ont dit que l'arrivée d'Iraniens était attendue dans les prochains jours. Et après cela, nous sommes revenus aux futilités — comme si le sujet n'avait pas assez de poids pour occuper la soirée.

Le pays que je veux visiter ensuite est la Géorgie. Passer par l'Iran n'a jamais fait partie de mes plans. Donc, égoïstement parlant, la guerre ne me dérange pas. J'adorerais visiter l'Iran. Peut-être un jour — après la chute du régime.


La raison est la suivante : je veux éviter au maximum les pays qui exigent un visa — je ne suis pas contre l'existence des frontières —, je refuse simplement de visiter des pays qui dressent trop d'obstacles pour accueillir les voyageurs.

Bibliothèque de Mardin

Il me semble que le tourisme a été un peu affecté par l'instabilité de la région, mais les chambres ne sont pas vides. En buvant un thé en terrasse, j'ai demandé à un employé d'hôtel s'il y avait eu des annulations. Il m'a répondu que personne n'avait annulé, malgré une légère baisse de demande.


Cependant, le 13 mars, un troisième missile iranien est intercepté et détruit sur le territoire turc. Et on ne peut pas dire que l'intensité de la guerre en Iran ait diminué.


Je fais une expérience de pensée, comme les bons scientifiques quand ils essaient de comprendre la réalité : je me place pendant quelques heures dans l'esprit du gouvernement américain. Comme le lecteur le sait, les montagnes du territoire kurde se trouvent aujourd'hui non seulement en Turquie, mais aussi en Syrie, en Irak et en Iran. Pour déstabiliser l'Iran, utiliser les Kurdes contre le régime actuel me semble une stratégie efficace. C'est du moins ce que je ferais — si j'étais en train de jouer à Civilization ou aux échecs. J'ai trouvé un communiqué de l'ambassade américaine qui déconseille à ses citoyens de visiter le sud-est de la Turquie.


Si je me suis empêché de commencer mon voyage en Ukraine, ce n'est pas pour me retrouver impliqué dans un autre conflit qui ne me concerne pas.


Je ne veux pas être mal interprété : comme mes amis le savent, je suis le genre de personne qui vibre à chaque fois qu'elle entend une marche militaire. J'aime la guerre. Je pense seulement qu'il faut ne l'avoir jamais faite pour penser ainsi. La patrie est une chose incroyable ! Mais tuer ou mourir pour elle est une absurdité sans nom.


Rester ou partir maintenant ? J'ai déjà décidé. Je pars — avant de commencer à inventer des raisons pour rester.




Sunday, 5 April 2026

Etapa 10 - Curdistão

 Ao fim da tarde deste dia 7 de Março, voltou a nevar em Mardin. Passei o dia na parte nova da cidade, almocei no centro comercial e tudo estava perfeitamente normal. Ninguém falava no míssil iraniano que tinha caído uns dias antes. Pergunto, insisto — pouco mais me respondem. Dois dias depois, outro míssil caiu na província de Gaziantep, a duzentos quilómetros daqui. A reacção é a mesma: quase nenhuma. 


No bazar, a multidão mantém-se. Bebo um chá enquanto vejo senhoras escolher peixe com uma atenção meticulosa. A vida continua com uma naturalidade que me intriga — talvez porque esta região já se habituou a viver com a instabilidade.




Nos anos oitenta, o Curdistão turco conheceu uma guerra sangrenta contra o governo. O clima nunca foi pacífico, mas hoje não sinto tensão aberta. Não presenciei qualquer arrogância étnica. Pelo contrário, se alguém dissesse algo absurdo numa praça pública — sei lá, que um povo é superior a outro — imagino mais facilmente uma gargalhada do que um confronto.

O mesmo se aplica ao Islão. Estamos em pleno Ramadão. Se alguém beber uma cerveja discretamente, não me parece que provoque grande escândalo. Alguns reprovariam, certamente. Mas não vejo aqui uma obsessão em corrigir o comportamento alheio. Posso estar enganado — mas é esta a impressão que levo.

Sinto-me bem em Mardin. Por enquanto, decidi ficar. Não por coragem — talvez mais por teimosia. Ou simplesmente porque ainda não senti o suficiente para me ir embora. Caso não bastasse, tenho um compromisso de palavra que me prende a Mardin durante mais algum tempo. Não é uma obrigação formal, mas tem peso suficiente para não ser ignorada. E Huseyin disse-me que compreendia se eu me fosse embora, o que reforça a minha vontade de ficar.

Ainda assim, a guerra não me sai completamente da cabeça. Enviei mensagem aos iranianos que conheci em Istambul. Quis saber se estava tudo bem com as famílias deles. 

Uma sexta-feira à noite, quis explorar alguns bares. Acabei por conversar com curdas de Van que vieram passar um fim de semana aqui. Bebemos um copo numa das casas de vinho de Mardin. A cidade delas parece lindíssima — falaram dela com um entusiasmo que quase me convenceu a mudar de planos. Falámos de viagens, de arte, de relacionamentos. A certa altura, acabei por perguntar o que achavam da guerra. Disseram-me que era expectável a chegada de iranianos nos próximos dias. E, depois disso, voltámos a falar de ninharias — como se o assunto não tivesse peso suficiente para ocupar a noite.

O país que quero visitar a seguir é a Geórgia. Nunca esteve nos meus planos passar pelo Irão. Por isso, egoisticamente falando, a guerra não me incomoda. Adorava visitar o Irão. Quiçá um dia — depois do regime cair.

A razão é a seguinte: quero evitar ao máximo países que exigem visto — não sou contra a existência de fronteiras —  apenas me recuso a visitar países que levantam demasiado obstáculos para receber viajantes.

Parece-me que o turismo foi um bocado afectado pela instabilidade da região, mas os quartos estão longe de estar vazios. Enquanto bebia um chá numa esplanada, perguntei ao empregado de um hotel se havia clientes que tinham cancelado a reserva. Respondeu-me ele que ninguém cancelou, apesar de ter havido um pouco menos de procura.

Todavia, no dia 13 de Março, um terceiro míssil iraniano é interceptado e destruído no território turco. E não se pode dizer que a intensidade da guerra no Irão tenha diminuído.

Faço uma experiência de pensamento, como os bons cientistas fazem quando tentam perceber a realidade: coloco-me por umas horas na mente do governo americano. Como o leitor sabe, as montanhas do território curdo estão hoje não apenas na Turquia, mas também na Síria, Iraque e Irão. Para destabilizar o Irão, usar os curdos contra o actual regime parece-me ser uma estratégia eficaz. Pelo menos é o que eu faria — se eu estivesse a jogar Civilization ou xadrez. Encontrei um comunicado da embaixada norte-americana que desaconselha aos seus cidadãos a visitar o sudeste turco. 

biblioteca de Mardin

Se me impedi a mim próprio de começar a minha viagem na Ucrânia não é para me acabar envolvido noutro conflito que não me diz respeito.

Não quero ser mal interpretado: como os meus amigos sabem, sou o tipo de pessoa que vibra sempre que ouço uma marcha militar. Eu gosto de guerra. Só acho que é preciso nunca a ter feito para pensar assim. A pátria é uma coisa incrível! Mas matar ou morrer por ela é uma absurdidade sem nome. 

Ficar ou partir agora? Já decidi. Vou-me embora — antes que comece a inventar razões para ficar.









Friday, 3 April 2026

Stage 9 - Heading to Kurdistan

 I get on a small bus to Nevşehir, a medium-sized city known for having been a refuge for Christians when the Roman Empire was still pagan. I take the opportunity to order a gözleme in a bazaar before boarding the long-distance coach — bound for Kurdistan.

I arrive in Kayseri, the ancient Caesarea. To the south of the city rises the giant Mount Erciyes. Why, out of twenty passengers, is there only one woman? In front of me, three young men made silence impossible; behind me, a man was watching videos on his phone without headphones. In the middle of all this, the police stopped the traffic. No one knows what’s going on. The bus starts moving again. Ah, but not without fuel! Another stop. Three hours and only one hundred kilometres. I changed seats, as if that would solve anything.

As the hours passed, the atmosphere changed: the cities became rarer, the headscarves more frequent, English disappeared. We were no longer in cosmopolitan Turkey.

At dawn, we arrived in Diyarbakir. The bus stopped, and only as it pulled away again did I catch sight of the impressive fortifications — like the endless walls of a European castle. Although they are Byzantine, Arab, and Ottoman, they seem strangely European to me. They are the second most extensive in the world.

Shortly before arriving in Mardin, the landscape suddenly breaks. The Taurus Mountains end without transition. Mardin — the fortress, as it has always been called — rises in limestone, its back against the mountains and its gaze fixed on the fertile plain, with no houses or trees to interrupt the monotony. There are no obstacles. I swear that if the water were green, I would have mistaken that landscape for an ocean. To the north, the steep mountains of Anatolia; to the south, Mesopotamia.

In Mardin, the streets do not follow any obvious logic. They climb, descend, narrow until they force two bodies to negotiate passage. The houses, made of light stone, reflect the light in an almost aggressive way at midday and turn golden at dusk. From certain points, it is enough to turn your head south to see Mesopotamia.

The hostel where I stayed — on a volunteer basis — is simple but full of character. My role there was minimal: from eight in the evening to midnight, welcoming guests, answering simple questions, pointing out a restaurant, a path. The perfect corner for the adventurer: simple, human, without rigid schedules.

In the neighbourhood, children play. Teenagers find small refuges to be together away from their parents’ gaze. On Sundays, families stroll as in any other city.

In the bazaar, I played chess with Sabri — a bookseller who had just completed a thesis on Foucault. Before that, I had seen him play backgammon against Huseyin at a staggering speed; faster than me when I play blitz chess. Afterwards, I bought a doll for two Syrian children.

The following morning, I explored more of the city’s alleys. I looked at the time and suddenly remembered that I had a student waiting for me. I entered the Maridin Hotel and asked if I could use the Wi-Fi to give a lesson. They accepted without any problem. I ordered a tea so as not to occupy the space for nothing. When I tried to pay, they refused. There was no real explanation — just a simple gesture that closed the matter.

At the end of the day, the call to prayer can be heard. It is part of the rhythm of the city.

They tell me that Gaziantep has the best cuisine in all of Turkey. For now, I only know that I really like what I eat.

Etapa 11 - À caminho do Cáucaso

  Durante o almoço, anuncio finalmente a minha decisão de deixar o Curdistão à Mesh e Huseyin. Se precisassem mesmo de mim, teria ficado mai...