Durante o almoço, anuncio finalmente a minha decisão de deixar o Curdistão à Mesh e Huseyin. Se precisassem mesmo de mim, teria ficado mais um dia ou dois, mas não é o caso. Agradeço-lhes a compreensão.
Na véspera, falei com Remo, um aventureiro suíço que faz uma viagem parecida com a minha. Ele pretende igualmente seguir para a Geórgia. E partiu logo de manhã.
A despedida foi mais difícil do que esperava. Abraços rápidos, promessas vagas de reencontro. Mardin não é uma cidade onde me veja a viver, mas é, sem dúvida, uma cidade onde quero voltar.
Ao final da tarde, passeio uma última vez pelas ruas tortas de Mardin que, julgava eu, haviam de me levar à estação de autocarro. Olho uma última vez para a planície da Mesopotâmia. Que contraste entre as placas tectónicas da Arábia e da Anatólia!
Perdi o primeiro autocarro por causa de indicações erradas do Google Maps. Nada de dramático — mas ainda assim, gostaria de ter jantado em Diyarbakir, capital oficiosa curda e destino de tantos povos — queria ver os seus museus, perder-me entre as suas praças. Tenho gente que se preocupa comigo e se lhes disse que rumava hoje para a Geórgia, não é para pernoitar na cidade turca em que considero menos improvável haver uma desestabilização política, um atentado, um míssil perdido.
Fiquei duas horas à espera do seguinte, sentado na estação, sem grande coisa para fazer, aproveitei para escrever o capítulo anterior.
O autocarro arrancou já de noite. A meio da viagem, fomos mandados parar por forças armadas. Pediram-me para abrir a mochila. Mostrei o suficiente para que percebessem que não ocultava nenhuma kalashnikov. Com outros passageiros foram mais minuciosos. Finalmente, prosseguimos. Chegámos a Diyarbakir às 0h02, sendo que o último autocarro para Erzurum partia às 23h59. Não sei bem como, o certo é que consegui entrar no autocarro sem bilhete. Começa a parecer-me que sair da Turquia será uma odisseia.
Ninguém, rigorosamente ninguém falava ou sequer arranhava o inglês. Tanto me faz. Adormeci. A meio caminho acordaram-me para que eu pudesse finalmente pagar o bilhete - não o comprara antes porque pela internet já não era possível, visto ter chegado depois das 23h59 e, na estação, não aceitavam multibanco. Nesta paragem extensa, algures entre as montanhas da província de Bingöl, ainda fortemente povoada por curdos, procurei levantar dinheiro mas não havia ATM. Quiseram que eu fizesse uma transferência. Aceitei, mas não me sabiam dar todos os dados necessários. Sugeri pagar o jantar. Tudo isso foi feito mais com gestos do que com palavras, pois a dada altura, um sujeito que trabalhava na rodoviária chamou um colega que, esperava eu, falava inglês, mas falou-me em turco — deixando-me sem perceber porque tinha sido chamado, se não falava inglês. Irritaram-se um pouco, pensaram que eu não queria pagar ou que não tinha dinheiro. Como eu tinha sugerido, paguei o valor do bilhete — mais um euro — no terminal de multibanco do restaurante da estação e o restaurante devolveu-lhes em notas o que eu devia.
Seguimos então para Erzurum. O exército manda novamente parar o autocarro. Desta vez, quiseram apenas checar as identificações. Chegámos à estação. Um planalto a dois mil metros de altitude, coberto de neve, rodeado por montanhas severas que por causa dos nove graus negativos não convidavam à contemplação prolongada.
Comprei um bilhete para Hopa (que se pronuncia como “ó pá”). Tinha duas horas de espera. Infelizmente, como de costume neste país, não existe wi-fi — ou neste caso, diz o telemóvel que existe, mas é preciso introduzir o número de telemóvel para indicar o código enviado por um SMS que nunca chega. Eram cinco da manhã. Várias famílias e viajantes solitários, esperavam como eu por autocarros, resolvi dar uma pequena caminhada para explorar o planalto da região. Deixei as malas sem me preocupar com elas. Várias pessoas me viram antes, é o suficiente para eu não ter de me preocupar se eu me ausentar trinta minutos. Depois de quase um mês na Turquia, cheguei à conclusão que existem ladrões como em qualquer parte do mundo, mas ninguém se atreveria a mexer em coisas que visivelmente não são dele. Aqui, há uma vigilância informal que me deixa tranquilo.
Por onde andará o Remo? À minha frente? Eis o meu autocarro que parte para Hopa, atravessando as montanhas interiores do norte da Turquia. Adormeço quase de imediato antes de acordar horas depois com os meus olhos pousados na natureza que me rodeia. Não conheço café mais eficaz do que a paisagem das montanhas da Anatólia. À minha esquerda os cumes nevados e a rocha macia própria da região, à minha direita a água cristalina do rio. Continuamos em altitude e os meus ouvidos fazem aquele ruído para se adaptar à pressão atmosférica. Por sorte sou quase o único passageiro. Aproveito para caminhar pelo corredor em busca do melhor ângulo para me deliciar com as paisagens.
Parámos em Atvin. Peço um gözleme mas já não havia. Comi então uma tosta banal, com um toque de especiarias asiáticas. Prosseguimos finalmente até Hopa. Vejo finalmente o mar negro à minha esquerda — calmo e infinito como um oceano. Estou absolutamente sozinho — mais o condutor.
Assim que chegámos a Hopa, dirijo-me a um multibanco para levantar dinheiro, pergunto a uma muçulmana universitária onde posso apanhar um transporte para a fronteira. Entro no autocarro, ou melhor, numa carrinha que tem capacidade para cerca de doze pessoas e levava dezasseis. Chego à fronteira. Instintivamente percebo para onde devo ir para entrar legalmente na Geórgia. Continuo sem saber por onde andará o Remo. Depois de alguma burocracia penetro na Geórgia. Antes mesmo de me aperceber, entro em mais uma carrinha com destino a Batumi. Vejo pelas janelas algumas lojas - escritas no alfabeto deles. Confesso que alimentava a esperança que usassem mais o alfabeto cirílico para quem não souber decifrar o primitivo alfabeto georgiano.
Desta vez o veículo, pensado para dezasseis pessoas, levava dezessete. Que se lixem o cinto de segurança e as regras de trânsito! Vejo Batumi no horizonte com os seus edifícios soviéticos misturados de gratte-ciel wannabe. Ou gratte-ciel Ryanair.
Não sei se tem paragens marcadas ou se simplesmente adivinha quando um passageiro quer sair e outro precisa de entrar. Eu sinto-me confortável, e deixo-me levar até a última paragem que me deixa no centro da cidade e quase à beira-mar.





































