Tuesday, 24 February 2026

Etapa 7 - Istambul

 O comboio parte quase a horas, uma búlgara conversou comigo e acabei por sentar-me ao lado dela. Mas o revisor avisa-me que não estou no meu lugar - é importante, pois o vagão em que estou pára antes de chegar à fronteira. Tenho portanto de ir para o meu compartimento; de qualquer modo, a minha nova amiga era divertida mas demasiado faladora. Agora que penso nisso, não me lembro de algum búlgaro ter iniciado conversa comigo.

Teria dormido bem, na minha couchette de 2ª classe, se não fosse a alfândega acordar-me por duas vezes. Na segunda vez, foi já na Turquia, o revisor do comboio acordou-me para me explicar que a polícia queria revistar os passageiros. Olhei lá fora, e vi os passageiros fazerem fila para mostrar os documentos e o interior das suas bagagens. Eles que venham ter comigo, respondi ao revisor. Mas este pediu-me para sair e apresentar-me à polícia. 



Enfim, eis-me finalmente em…Halkali? Ok, já me tinham avisado que o comboio parava nos subúrbios da capital cultural turca. Vejo o mar por instantes e apanho outro comboio, pois a ver pelos prédios altos e residenciais, eu diria que aqui não se faz grande coisa. Vamos εἰς τὴν Πόλιν! (eis tḕn Pólīn significa “para a cidade”).




Constantinopla! Finalmente cheguei à cidade que separa a Europa da Ásia. 

E quero chegar à Ásia a pé! Nem mesmo de carro hei de inspirar pela primeira vez o ar da Anatólia. Há por aqui duas pontes. Se nenhuma for pedestre correrei o risco de ser multado. Não quero nem saber. Ninguém me há-de tirar esse prazer estúpido de me imaginar um legionário que atravessa o Bósforo para chegar ao outrora império de Darius II. De um lado a Grécia, do outro a Pérsia. Tudo o resto são corrupções contemporâneas da história. É esta a cidade! Istambul.






Por vezes penso que nasci no final do século XIX, que por alguma razão não vivi o seguinte e voltei a viver no século XXI. Estou familiarizado com as recentes tecnologias, e não é verdade que tenha nascido no século XIX. Mas a minha educação literária é quase exclusivamente feita de século XIX. Por essa razão, em qualquer parte do mundo, estou habituado a ler que as pessoas dizem que o meu povo é melhor que o outro. Fica o leitor avisado. Não há aqui nenhuma intenção política, apenas estética. Se eu fosse um explorador da Antártida carregaria comigo uma bandeira portuguesa, ou aceitaria uma francesa, para declarar o sexto continente como propriedade do Império Português. 


Istambul, ainda sem a certeza de onde vou passar a noite, escolho sair do comboio perto da Santa Sofia. Quantos turistas! Até comia um kebab, mas aqui é que não, sempre que pouso o olhar para um menu vejo uma pessoa sorrir para mim como quem diz: entre, venha gastar o seu dinheiro connosco. Dê a volta à outrora gloriosa catedral (e lindíssima mesquita). Só quem já esteve numa cidade como Paris ou Veneza pode imaginar a quantidade de pessoas que faziam fila para entrar. 




Depois de caminhar por vários bazares de Istambul, comi milho frito nos jardins da Mesquita Azul. Alugo um quarto no Buculeon by Cheers, perto da confusão turística mas com vista para o mar. Aproveito para almoçar uma espécie de pequenos hambúrgueres de cabrito com batata frita e salada enquanto vejo o mar, a fronteira entre o mar negro e o mediterrâneo, os pássaros e os barcos. Estava bom, nota-se que é comida caseira. Vejo a Ásia pela primeira vez, podia ir a nadar se eu quisesse. Não sei se é permitido ou perigoso, e seja como for, estou cansado e não sou um excelente nadador. Vou dormir a sesta.


Adormeci facilmente e tive de me obrigar a levantar para aproveitar ainda a tarde. Passeei um pouco à beira-mar. O tempo está mudando, levantou agora uma ventania tal que as andorinhas não conseguem voar directo e as ondas rebentam na costa. Volto para o hostel.




No dia seguinte, procurei uma biblioteca, nos arredores da Santa Sofia. Quanto dinheiro não devem fazer com tanta gente a pagar para entrar na igreja transformada em mesquita. Posso já adiantar que as únicas mesquitas que visitei em Constantinopla, desculpe, em Istambul, não foram mesquitas, foram igrejas. Gostaria de ter visitado algumas mesquitas, mas ainda não tive a oportunidade de ser convidado a entrar por um muçulmano; não quero entrar como turista. Para ver a Santa Sofia, até abria uma excepção, por ter um legado histórico que faz dela um monumento tão magnífico. Mas também não faço questão; deixo-a aos 99% de turistas que passeiam em Cagaloglu. A biblioteca de Ahmet Hamdi é uma antiga mesquita e é a meu ver um bem mais valioso. O segurança apenas me pediu para escrever o meu nome ao entrar, pude consultar os livros - caso soubesse ler turco - ligar o meu computador à tomada, e estudar em paz, em silêncio que só o cântico distante dos muezins rompia de forma agradável. Ao fim do dia volto a caminhar, atravesso o Corno do Ouro e pernoiteço em Kabatas. 


Hoje de manhã quis finalmente atravessar a ponte do Bósforo a pé. Já me tinham avisado que passou recentemente a ser proibido porque muita gente se suicidava nessa ponte. Ainda assim, tentei. A polícia mandou-me parar, explicando numa mistura de turco com inglês o que eu já sabia. Expliquei que mergulhar no Bósforo não fazia parte dos meus planos, apenas queria atravessar a ponte. Sorriram, disseram-me que tinham que obedecer às ordens e que infelizmente não me podiam deixar passar. Agradeci na mesma. São simpáticos, os polícias e seguranças de Istambul. As agentes também. Não imaginava ver tantas. A maioria delas, usa apenas um boné para esconder os cabelos. São simpáticos os polícias, dizia eu. São tolerantes e sorridentes, alguns guardam apenas uma pistola, enquanto outros carregam uma caçadeira. Em todo o lado vejo câmaras de vigilância, nunca tinha estado num país com tanta vigilância. Para entrar no museu de arte contemporânea, tive de passar duas vezes por aqueles pórticos que encontramos nos aeroportos. 





Vejam-me este gato no meio do passeio! Esqueci-me de mencionar que a metrópole de Istambul abriga 15,8 milhões de pessoas, cerca de 300 mil gatos e 140 mil cães. As três espécies vivem em paz umas com as outras, coabitam pacificamente, conhecem os hábitos da cidade, possuem os mesmos direitos, partilham os mesmos espaços e conhecem os rudimentos do código da estrada. Cheguei a perguntar-me se um gato que vi na véspera no supermercado trazia consigo dinheiro para comprar peixe.





O tempo hoje está péssimo, chove bastante, com vento forte. Apanharei o ferry para a Ásia logo para beber uma cerveja. Verdade seja dita, antes dos otomanos terem conquistado a cidade, essa ponte não existia. Tanto melhor. 


Eis-me finalmente no barco que parte para Kadikoy. Do outro lado, o sol asiático. Não sou o único turista mas sou sem dúvida alguma o mais excitado. Hoje em dia é tudo muito seguro, mas as correntes que separam o Mar de Mármara ao Negro, já engoliram frotas inteiras. O ferry vira a tribordo antes de ligar os seus motores a fundo, cortando as águas do Bósforo. A sala interior é confortável, mas prefiro ficar do lado de fora para melhor apreciar a vista e as oscilações das ondas. Vejo o palácio otomano afastar-se e as gaivotas a acompanhar o navio - sabem que os turistas dão-lhes pão. Desculpem-me, não trago pão comigo, gaivotas. Caminho de um lado ao outro da caravela à procura do melhor ângulo de observação - olá, colega que vai em sentido contrário; carregar os canhões para salutar! A Ásia aproxima-se nessa viagem que ainda demora os seus vinte minutos de beleza subliminar. Passamos pelas gruas e alguns barcos de pesca. Abarcamos. Deixo essa malta com mais pressa que eu sair primeiro, não me importava de passar o dia dando idas e voltas. Ao pisar a terra, percebo que a cidade é a mesma, as pessoas, as mesquitas, as regras, nada mudou, a não ser esse pequeno cheiro próprio das aldeias pescatórias.





Depois de uma breve caminhada pelo bairro, repleto de mercados de peixe, queijarias, souvenirs, restaurantes, bebi uma cerveja num bar com a intenção de escrever mas acabei por conversar com turcos e turistas de todas as nacionalidades. Mas quero retomar a narrativa no ocidente, principalmente no Galata West Hostel, onde tenho dormido. Conheci muitos iranianos perdidos em Istambul. A Nina, uma australiana que conheci na cidade, disse-me que no clube de inglês onde ela trabalha, também há muitos iranianos. Falámos no Irão, nas famílias que eles deixaram por trás. Muitos deles tinham estado nas linhas da frente durante os protestos. Lamentam que a religião esteja tão presente na política. O Mohamed deixou o trabalho para Istambul à espera que a tempestade acalme. A Maysa veio para trabalhar na Turquia ou na Europa, ainda não sabe bem. Conversam com a família todos os dias - pelo menos a internet voltou na terra deles. 




Simpatizei com outros iranianos, turcos, um marroquino que me derrotou no xadrez, uma brasileira, um ucraniano… Há, reencontrei um alemão que tinha conhecido em Plovdiv! Custou-me ainda mais que me tinha custado em Plovdiv, deixar para trás as pessoas que conheci no hostel. Caminho até à estação de Kabatas e apanho novamente o ferry para Kadikoy, na Ásia. Sinto já saudades das pessoas que conheci enquanto vejo os bairros do ocidente afastarem-se. Mas o meu desejo por aventura é superior. Adeus minha amada Europa. Espero não voltar antes do Outono.




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