Sunday, 5 April 2026

Etapa 10 - Curdistão

 Ao fim da tarde deste dia 7 de Março, voltou a nevar em Mardin. Passei o dia na parte nova da cidade, almocei no centro comercial e tudo estava perfeitamente normal. Ninguém falava no míssil iraniano que tinha caído uns dias antes. Pergunto, insisto — pouco mais me respondem. Dois dias depois, outro míssil caiu na província de Gaziantep, a duzentos quilómetros daqui. A reacção é a mesma: quase nenhuma. 


No bazar, a multidão mantém-se. Bebo um chá enquanto vejo senhoras escolher peixe com uma atenção meticulosa. A vida continua com uma naturalidade que me intriga — talvez porque esta região já se habituou a viver com a instabilidade.




Nos anos oitenta, o Curdistão turco conheceu uma guerra sangrenta contra o governo. O clima nunca foi pacífico, mas hoje não sinto tensão aberta. Não presenciei qualquer arrogância étnica. Pelo contrário, se alguém dissesse algo absurdo numa praça pública — sei lá, que um povo é superior a outro — imagino mais facilmente uma gargalhada do que um confronto.

O mesmo se aplica ao Islão. Estamos em pleno Ramadão. Se alguém beber uma cerveja discretamente, não me parece que provoque grande escândalo. Alguns reprovariam, certamente. Mas não vejo aqui uma obsessão em corrigir o comportamento alheio. Posso estar enganado — mas é esta a impressão que levo.

Sinto-me bem em Mardin. Por enquanto, decidi ficar. Não por coragem — talvez mais por teimosia. Ou simplesmente porque ainda não senti o suficiente para me ir embora. Caso não bastasse, tenho um compromisso de palavra que me prende a Mardin durante mais algum tempo. Não é uma obrigação formal, mas tem peso suficiente para não ser ignorada. E Huseyin disse-me que compreendia se eu me fosse embora, o que reforça a minha vontade de ficar.

Ainda assim, a guerra não me sai completamente da cabeça. Enviei mensagem aos iranianos que conheci em Istambul. Quis saber se estava tudo bem com as famílias deles. 

Uma sexta-feira à noite, quis explorar alguns bares. Acabei por conversar com curdas de Van que vieram passar um fim de semana aqui. Bebemos um copo numa das casas de vinho de Mardin. A cidade delas parece lindíssima — falaram dela com um entusiasmo que quase me convenceu a mudar de planos. Falámos de viagens, de arte, de relacionamentos. A certa altura, acabei por perguntar o que achavam da guerra. Disseram-me que era expectável a chegada de iranianos nos próximos dias. E, depois disso, voltámos a falar de ninharias — como se o assunto não tivesse peso suficiente para ocupar a noite.

O país que quero visitar a seguir é a Geórgia. Nunca esteve nos meus planos passar pelo Irão. Por isso, egoisticamente falando, a guerra não me incomoda. Adorava visitar o Irão. Quiçá um dia — depois do regime cair.

A razão é a seguinte: quero evitar ao máximo países que exigem visto — não sou contra a existência de fronteiras —  apenas me recuso a visitar países que levantam demasiado obstáculos para receber viajantes.

Parece-me que o turismo foi um bocado afectado pela instabilidade da região, mas os quartos estão longe de estar vazios. Enquanto bebia um chá numa esplanada, perguntei ao empregado de um hotel se havia clientes que tinham cancelado a reserva. Respondeu-me ele que ninguém cancelou, apesar de ter havido um pouco menos de procura.

Todavia, no dia 13 de Março, um terceiro míssil iraniano é interceptado e destruído no território turco. E não se pode dizer que a intensidade da guerra no Irão tenha diminuído.

Faço uma experiência de pensamento, como os bons cientistas fazem quando tentam perceber a realidade: coloco-me por umas horas na mente do governo americano. Como o leitor sabe, as montanhas do território curdo estão hoje não apenas na Turquia, mas também na Síria, Iraque e Irão. Para destabilizar o Irão, usar os curdos contra o actual regime parece-me ser uma estratégia eficaz. Pelo menos é o que eu faria — se eu estivesse a jogar Civilization ou xadrez. Encontrei um comunicado da embaixada norte-americana que desaconselha aos seus cidadãos a visitar o sudeste turco. 

biblioteca de Mardin

Se me impedi a mim próprio de começar a minha viagem na Ucrânia não é para me acabar envolvido noutro conflito que não me diz respeito.

Não quero ser mal interpretado: como os meus amigos sabem, sou o tipo de pessoa que vibra sempre que ouço uma marcha militar. Eu gosto de guerra. Só acho que é preciso nunca a ter feito para pensar assim. A pátria é uma coisa incrível! Mas matar ou morrer por ela é uma absurdidade sem nome. 

Ficar ou partir agora? Já decidi. Vou-me embora — antes que comece a inventar razões para ficar.









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