Se faço uma ligeira digressão no meu caminho é porque insisto em conhecer outra cidade búlgara; quero uma que não seja apetecível à maioria dos viajantes apenas por causa da praia; e para isso escolhi Plovdiv.

Adormeci pouco depois de ter chegado ao comboio. No entanto, acordei a meio da noite e não adormeci mais. O comboio chegou às 6h como era previsto. Devo confessar que me sinto exausto, teria preferido que chegasse atrasado, teria certamente dormido mais. Quero dormir, porque raio ninguém inventou (que eu saiba) hotéis que funcionam 24h por dia em que possamos pagar à hora? Existem as salas de coworking, já confirmei que existe uma em Plovdiv, mas só abre às 9h. Eu queria dormir agora. Que posso eu fazer a não ser visitar a cidade enquanto esta ainda dorme?
Passo por um pequeno jardim com as árvores cobertas de neve - relaxe, prometo não voltar a fazer nenhum monólogo sobre a neve - mas ficam tão bonitas, as árvores, assim nuas, negras e levemente cobertas de neve. Quis sentar-me neste jardim para ler as notícias e descansar o corpo, mas os bancos estavam demasiado húmidos. São 7h, alguns cafés começam a abrir. Vou experimentar algo doce nesse Bakery Art. Peço uma espécie de éclair sem grande convicção. Antes de ela pegar no doce aviso que não tenho dinheiro comigo, que só posso pagar com multibanco. A casa não aceita cartões. Dou então a entender ao empregado - que fala um pouco inglês - que lamento, mas não me dá jeito ir ao multibanco agora. A mulher percebeu, embrulhou o éclair num papel e ofereceu-mo. Que bom! Tem crème patissière com chocolate de qualidade! Foi o melhor éclair que alguma vez comi.
E continua a nevar… Mas já me sinto bem melhor, aproveito para caminhar pelo centro da cidade. Duas horas depois, preciso de descansar, páro, por volta das 9h, num café que me parece cosy, isto é, sossegado, e peço um chá verde para aquecer, escrever um pouco e procurar um hotel - de preferência um que aceite que eu durma uma pequena sesta antes do check-in.
No dia seguinte fui correr em duas das sete colinas de Plovdiv. Os romanos quiseram que fossem apenas três e deram à cidade o nome de Trimontium. Não as contei mas são colinas verdadeiras, não apenas pequenas subidas. Do alto de Dzhendem Tepe, a mais alta, podemos observar o quão grande se tornou Philippopolis (nome da cidade no período grego).
A colina de Nepet Tepe, mais pequena e no centro da cidade, abriga a maioria dos museus. E quantas igrejas por metro quadrado! Creio nunca ter visto tamanha concentração de igrejas. Lindíssimas, abertas ao público, embora peçam doações - fiz o símbolo com a cruz para simultaneamente me sentir um cristão ortodoxo por uma hora e também para não ter de dar gorjeta às senhoras que tomavam conta da igreja.
Partilhar fotos poupa ao leitor a necessidade de ler a descrição, e a mim, de a escrever. Ainda assim, queria sublinhar que a presença de cada igreja é muito forte. Em muitas igrejas, era proibido tirar fotos do interior.
O centro dessa cidade é cheio de esplanadas com cores e estilos diferentes. Não encontro nenhuma praça simbólica, mas várias ruas que se cruzam. Passo pelos mesmos locais sem querer mas por entradas diferentes. Cada café, bar e restaurante, parece carregar uma forte personalidade. Não cheguei a visitar o museu de arqueologia porque muitos dos sítios arqueológicos permanecem vivos, integrados na cidade.
Durmo em Kapana, uma espécie de bairro alto lisboeta com ruas menos íngremes mas ainda mais tortuosas, mais fácil de se perder. Ganhei o hábito de caminhar sobre o anfiteatro romano sempre que preciso de passar pelo supermercado. Já dormi em mais de cinquenta hosteis e acho que nunca vi um tão pequeno. Tem apenas três quartos, uma cozinha, uma sala, uma pequena varanda e duas casas de banho. No total éramos cerca umas oito pessoas a partilhar o apartamento. Metade eram búlgaros, a média de idades é superior à minha. Há claramente um clima de ajuda, e a vibe é mais sociável do que festiva.

Pela primeira vez na minha viagem, imaginei-me a viver aqui. Não como turista, mas como alguém que tem o seu grupo de amigos, que conhece os horários das lojas. Foi um pensamento breve, mas não foi superficial.
No dia seguinte, voltei ao Bakery Art para comer um éclair e oferecer uma pequena flor à senhora. Disse-lhe que o éclair que comera tinha sido um dos melhores da minha vida. Eu sei que esse tipo de pequenas histórias dependem mais das pessoas do que da cultura de um povo; todavia há lugares onde é mais expectável de acontecer esse tipo de magia humana.
Tenho conversado com alguns locais hoje, mais do que ontem, e percebo que a vida desse povo não é fácil. Apesar de terem entrado na União Europeia, mostram-se apreensivos com a inflação significativa dos preços no último ano. Os supermercados são claramente mais baratos do que em Portugal por exemplo. Os restaurantes de comida rápida também. Em qualquer rua encontramos máquinas que servem café por cerca de 0,50€. Porém, os cafés um pouco fancy ou um restaurante normal, os preços são semelhantes aos de Espanha.
Continuo a gostar de explorar Plovdiv, mas devo dizer que tenho um sangue latino. Gosto de sentir que a rua é a sala de estar da cidade. Onde ir ao café é como uma extensão natural das nossas casas. A hospitalidade em Plovdiv é igual à portuguesa ou à romena; mas o encontro entre pessoas desconhecidas não é hábito. A cidade é acolhedora mas não vibra como eu gostaria.
Nos subúrbios de Plovdiv, sente-se um ambiente comunitário genuíno, mas os edifícios são desleixados e não sinto o mesmo clima de segurança. Não faria o que estou a fazer neste preciso momento: escrever directamente para o computador num square do centro da cidade, junto a uma mesquita histórica de Kapana.

Apesar de ser já sexta-feira e do frio finalmente estar suportável, o centro da cidade já se encontra praticamente vazia. Percebe-se que muita gente ao fim do dia se recolhe em casa para beber não tendo mais nada para fazer - não apenas em Plovdiv, mas essa prática é habitual em toda a Bulgária. Inclusive gente com salários razoáveis como médicos ou advogados. É triste. Esse povo não é menos acolhedor que o português, carrega a mesma melancolia, a mesma fatalidade, mas nem sequer permanece em cafés para socializar.
Gostaria de passar um dia para visitar aldeias nas montanhas Búlgaras, mas não me quero atrasar mais. Parto amanhã, sábado à noite para Istambul.
Custou-me um bocado despedir-me da malta no hostel, mas teve de ser. Passei a tarde no jardim do Tsar Simon Garden, um pouco para trabalhar, mas acima de tudo para ver os búlgaros passear em família. Jovens adolescentes também cá andam. Já apanhei dois grupos com uma coluna a passar música alta. Pelo menos, passavam metal. Há aqui muitos pinheiros, o que mantém uma cor verde ao jardim. O clima de hoje está ameno. Ainda é inverno, mas o frio já não é tanto, a neve não há-de voltar mais, muitas mulheres retiraram do armário uma saia pela primeira vez do ano. Alguns casais trocam beijos.
Esta tarde de 14 de Fevereiro pode ter um ar primaveril, mas o inverno ainda vai a meio, são 16h30 e o pôr do sol já começou.
Ah… hoje é dia dos namorados. Por isso anda tanta gente com rosas na mão, tantos casais que foram dar um passeio. Cansa-me um bocado de me ver sempre com a mesma roupa, tenho o meu lado dandy que exige que tenha comigo pelo menos uma peça de roupa mais estilosa. Não tenho encontrado um chapéu que me agrade, e também não sei se hei-de optar por um de inverno ou um de verão. Aproveito que estou no centro comercial para ver as montras. Finalmente compro um blazer pardacento que me pode servir no inverno como em dias de primavera. Esqueci-me no hotel das minhas sapatilhas de correr. Já não tenho tempo de voltar ao hostel. Não tem grande mal, são velhas e gastas.
Plovdiv foi uma pausa muito vitalizante. Guardo na memória as ruas tortuosas do centro e aquele delicioso éclair como recordação.

















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