Sunday, 8 February 2026

Etapa nº2 Roménia


                                                        catedraql ortodoxa em Arad

  Início da tarde do dia 27 de Janeiro. Decidi, antes de permanecer por uns dias em Timisoara, efectuar uma paragem em Arad. Apesar do frio e da chuva miúda, percorri a cidade a pé e, sinceramente, apesar do rio Mures que caprichosamente serpenteia pela cidade, teria ficado desiludido com esta, não fosse a providência levar-me para o café Camino Social Place onde parei para trabalhar e acabei por conhecer malta simpática e interessante. A cidade tem igrejas lindíssimas, como em toda a Roménia, mas fiquei com a sensação que a beleza se resumia a uma única rua. Nem sequer tem um rossio típico do sítio. O turista pode aproveitar para ir à missa, almoçar e beber um café; mas, devo ser honesto, não me deu vontade de viver lá. A natureza? É gira mas fica aquém das margens do Danúbio que mergulhou para sul ao passar por Budapeste para apenas em Belgrado se decidir rumar novamente para leste. Nem tem o sublime das montanhas dos Cárpatos.

Bem, mas eu tinha tantas saudades da Roménia que não pude resistir. E foi uma escolha sensata, caso contrário não teria tido um serão tão agradável. E quão hospitaleira é essa gente! 

Foquemo-nos no dia seguinte: apanho o comboio às 7h30 em direcção a Timisoara. Uma viagem de 57km demorou… adivinhe… 2h33. Sem atrasos. Não me pergunte pela paisagem porque aproveitei para dormir mais um pouco. 

Finalmente descubro Timisoara, e que praças, Meu Deus! Que cores tão ricas, recheada de teatros neoclássicos e uma catedral barroca! Eu não sabia que Timisoara fora a primeira cidade do mundo a ter electricidade. Antes ainda de Paris. 










E foi igualmente em Timisoara que se deram as primeiras movimentações para derrubar o regime comunista de Ceauşescu, no ano de 1989. Aliás, visitei o museu do comunismo. Gostei porque a associação que gere o espaço tem um pub cultural, mas devo dizer, a mim cheirou-me mais a hipster wannabe do que a cultura, mais a gente de esquerda com iPhone. Voltando ao “museu” do comunismo: pode-se observar telefones do século anterior, um frigorífico da dimensão de um pequeno laboratório científico (não seria capaz de o levantar sozinho; nem eu nem ninguém), jogos da época, outras ninharias que permitam todavia a quem o visitar mergulhar no comunismo romeno do pós-guerra. 






Queria socializar mas num local diferente. Encontrei o under the bridge num horário pós-laboral. Nem mesmo a rapariga que se tinha despedido do antigo emprego para lavorar no museu do comunismo levou a mal a minha crítica acerca do espaço cultural do museu comunista. Bebemos cervejas. Pela segunda vez na minha viagem falo com pessoas progressistas que são pessimistas relativamente ao clima de insegurança social que se vive na Europa Ocidental. Dou-lhes razão há qualquer coisa na nossa Europa Ocidental que não bate certo. Em Budapeste como em Timisoara sinto-me bem tranquilo, muito menos na defensiva do que numa grande cidade da Europa Ocidental.


Nada é perfeito: visivelmente, muitos dos apartamentos aceitam reserva sem pagamento, que é para pagar no local em dinheiro (sem factura como é óbvio). Nada contra se oferecessem algo em troca, mas aproveitam-se para pedir ainda mais, ainda habituados aos turistas estrangeiros que pagam grandes taxas de câmbio. Parei num restaurante popular no centro de Timisoara. A música autenticamente transilvânica apelou-me. O interior era perfeito. Mesas com cadeiras em madeira maciça, panos bordados à moda da região. E adoro o facto dos empregados não falarem inglês. Comi uma deliciosa sopa com tripas e legumes e depois quis um goulash. O único ponto negativo dessa experiência foi sentir-me quase obrigado a dar uma gorjeta de 10%, o que não se enquadra na viagem que ando a fazer. Os empregados queixavam-se que os clientes já não davam gorjetas porque nos dias de hoje toda a gente paga com cartão; mas conseguiram implementar um sistema que permite ao cliente escolher se quer contribuir com 0, 10, 12 ou 15% de gorjeta. Não é uma questão de dinheiro. É uma questão de não achar esse modo de vida atraente é demasiado robótico. Mas ainda não é altura de explicar o que entendo por robótico. 






Ah, queria igualmente mencionar que pela primeira vez fui abordado por uma pessoa que queria dinheiro. Veio-me com uma lengalenga… mas até se mostrou simpática; dei-lhe 10 lei (2€). Quis mais. Mandei-a passear com educação. Agradeceu e deixou-me em paz.



Cheguei a Timisoara no final de janeiro, quando o inverno já não se anuncia com dramatismos, mas se instala metodicamente. Tinha nevado alguns dias antes, e a cidade conservava ainda sinais dessa visita: restos de neve acumulados nos passeios, um frio húmido que subia do chão, e aquela luz pálida que só existe quando o céu se mantém indeciso entre o sol e a névoa. Não era uma cidade coberta de branco, mas uma cidade que se lembrava de o ter estado.


A pista de gelo no centro da cidade era maravilhosa, mas abandonada; não sei porquê; passei por lá algumas vezes e nunca vi ninguém patinar. Eu, patinar? Até gostava mas preciso de trabalhar. Vou até à universidade ver se encontro alguma calmaria para dar aulas.



No dia seguinte fui ao norte de Timisoara. Devo dizer, já que só digo coisas positivas dessa cidade, que as largas avenidas tornam a vida chata a quem gosta de caminhar. Quero agradecer fortemente à Mihaela, que me hospedou dois dias. Não me apetece de todo deixar Timisoara, mas devo prosseguir com a minha viagem. A minha ideia inicial era visitar Belgrado, mas apetece-me ficar na Roménia. Por isso parto para Bucareste. Vou num comboio nocturno. Na 2ª classe sem camas. Julguei sinceramente passar um início de noite mais desconfortável. O meu bilhete marca o lugar 74. Carruagem 724. Estou sentado no lugar 74 mas sei que não estou na carruagem certa. Visivelmente os revisores não querem saber. Tenho quatro lugares e uma mesa para mim, para não contabilizar os outros quatro, igualmente vazios que seguem ao meu lado. Wi-fi não, não exageremos. Mas duas tomadas só para mim. O comboio partia (supostamente) às 21h42. Houve a inevitável meia hora de atraso. Ninguém se queixou. Não sei a que horas chegarei a Bucareste… Bem, deveria sentir-me feliz por aproveitar esse comboio que, apesar de ser eléctrico, tem um charme que não encontramos mais na Europa Ocidental.


Desabafo: não sei da minha carteira desde que esperava pelo comboio. Recordo-me de pagar um café em dinheiro, ontem à tarde. Posso ter-me esquecido dela no café. Se assim for, não tenho dúvidas de que amanhã terei notícias favoráveis. Caso contrário não sei. Se tivesse ficado na casa onde me hospedei, a minha carteira teria provavelmente sido encontrada. Sejamos racionais: tinha a carteira comigo ontem por volta das 17h. Pode ter ficado no café, caído do meu bolso (improvável), ou pode alguém tê-la roubado quando estive hoje no supermercado e deixei a minha mala no chão por um minuto acho essa hipótese igualmente improvável pois mantive os olhos abertos.

Resumindo: 80% de hipótese da minha carteira (com BI, cartão Revolut confirmei que ninguém o usufruiu, carta de condução, cerca de 40€ em notas romenas, e outros cartões) está ou em casa da Mihaela ou no café. 

E se assim não for? Creio que posso facilmente fazer um novo cartão Revolut, um cartão de cidadão na embaixada e o resto que se lixe.

Ah, aqui temos o zeloso trabalhador ferroviário com as suas raquetes de ping-pong a dar sinal ao comboio que pode continuar…
Não quero dramatizar a situação da carteira. Partilho com o leitor algum imprevisto, neste caso desagradável, que pode acontecer ao peregrino. 


Com um saco cheio de pão, queijo, húmus, água e cerveja para acompanhar parte da noite, do que me queixo? 

De não saber onde estará a minha carteira. Sherlock Holmes, o que dirias no meu lugar? Que quando quase tudo é impossível a resposta encontra-se na menos improvável?


Repito que não há aqui drama, e autorizo-me a transmitir a minha frustração porque espero que possam dar um sopro de suspense à minha jornada. A minha carteira está onde está. Não creio que rezar a faça mudar de lugar. E também não creio que quem ouve as rezas, caso os haja, deva priorizar a minha.


Ainda assim, escolhi ir para regiões seguras não, não irei ao Afeganistão nem à Síria. Nem tão pouco à Ucrânia, embora relativamente a esse último tenha sido a minha intenção no início. Comprometo-me a falar depois da Ucrânia, do que me puxou para ir e do que fez com que eu não fosse.

Por agora, queria salientar que o que escrevo não é literatura: é apenas um relato das minhas viagens não há aqui ficção nenhuma. E por isso não considero essa obra que comecei a escrever propriamente como literatura. Não pretendo subir ao monte Everest, tomar partido em algum conflito armado nem tão pouco arriscar-me a atravessar um deserto sozinho. 

Quero viajar em segurança não pretendo realizar nenhuma viagem épica. Ainda assim, visto eu ser um gajo relativamente atlético e capaz de caminhar dezenas de quilómetros por dia com bagagens independentemente do clima, de adormecer sem precisar de colchões, de não me queixar se não encontrar comida… Não tenho medo do imprevisto que mais cedo ou mais tarde há-de bater à porta.


Basicamente, quero um equilíbrio entre aventura peregrina e viagem turística.


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