O comboio passa pelos subúrbios feios de Bucareste; ainda assim, algumas igrejas ortodoxas modernas impõem respeito.
A paisagem na planície que segue depois das escarpadas montanhas dos Cárpatos é muito verde apesar do inverno. E as árvores obviamente nuas têm os pés cobertos de neve.
Eis-me já em Constanta, o comboio chegou a horas. Do comboio caminho uns três quilómetros para chegar ao centro dessa cidade carregada de história e pré-história. Pela primeira vez na minha vida vejo o mar negro. Que barulhenta é a natureza! Gaivotas como as de Lisboa, a praia extensa e o mar bravo, inhospitaleiro. A neve escassa por onde a maré alta nunca passa sobreviverá mais uns dias. Vejo no horizonte alguns navios. Pessoas na praia, nem uma. Imagino os mercadores da antiguidade grega que se aventuravam pelo mar, altura em que Constanta - outrora Tomis - era uma importante cidade da liga de Delos. Depois de ter sido anexada pelos romanos, o poeta Ovídio viveu aqui os últimos anos da sua vida. E antes ainda da história começar, viveram nessa região civilizações complexas. Amanhã verei o famoso museu arqueológico de Constanta.
Que desilusão. A cidade é muito cara apesar da época baixa. Paguei mais de 25€ por um goulash acompanhado com salada, que me venderam como se fosse uma especialidade local. Achei as ruas mortas, os bares sem personalidade. Sinceramente, não gostei muito das pessoas, achei-as pouco cultas, pouco admirativas do legado histórico que possuem, pouco entusiastas em falar com um turista como eu: veem-me apenas como uma carteira a explorar nessa época baixa que não acaba e que transforma a Ibiza da Roménia numa cidade resignada com o inverno mais ventoso do que frio. Vejo depressão no rosto das pessoas e, já tinha ficado com essa impressão em Bucareste, as mulheres desaparecem nas suas maquilhagens - sugiro um programa de Erasmus às mulheres da Valáquia. Uma coisa é usar subtilmente um toque de batom, ou outro artefacto qualquer, outra coisa é mergulhar a cara num frasco de maquilhagem. Façam o que bem quiserem, não há aqui nenhum juízo moral da minha parte - apenas estético: ganham em erotismo e vulgaridade o que perdem em elegância e personalidade.
Bem-haja ao Angels Café pela panqueca romena (que era um crepe francês) e pelos dois dedos de conversa genuína que troquei com a proprietária e alguns clientes. Não é um café onde se respira cultura; mas a proprietária não me viu apenas como um cliente. Não dava para falar da riqueza histórica de Constanta; mas prefiro dez vezes mais um espaço onde proprietários e empregados mostram um interesse genuíno em falar de futebol, do que um espaço requintado mas desprovido de magia humana.
Vou dizê-lo apenas uma vez, para que não haja mal-entendido. Há de tudo em todo lado. Mas que em média as pessoas em Copenhaga são menos materialistas e ligam menos às aparências do que em Constanta, não vejo como negá-lo. E uma vez mais, não se trata de nenhum juízo moral - não crítico, apenas digo que não quero passar muito mais tempo aqui.
Positivemos: amanhã verei o rico museu de arqueologia. Acordo com as gaivotas cantarolando por cima do telhado. Depois do meu café da manhã, vou finalmente ao museu. Sinto-me quase ansioso, mas rapidamente essa ansiedade é substituída por desilusão. O museu encontra-se fechado para obras.
Ouvi dizer que as escavações são difíceis de se fazer porque a cidade moderna foi erguida no mesmo lugar. Tenho uma sugestão, que o leitor adivinhará facilmente um quanto drástica para solucionar esse problema.
3…2…1… Bulgária! Levanto o braço no autocarro, que pena já estar de noite nesses dias curtos do inverno.
Varna é outra estação balneária conhecida nos Balcãs. Contrariamente à romena, é uma cidade relativamente grande, e por isso não vive exclusivamente do turismo do verão. As pessoas são muito mais faladoras, muito mais empenhadas em não esquecer que a vida persiste durante o inverno.
No dia 7 de Fevereiro dormi bastante antes de tomar um brunch no apartamento que aluguei. A temperatura está amena, com nuvens escassas e uma brisa fresca. Visitei o museu de arqueologia. Não o posso comparar com Constanta, posso apenas dizer que é bastante bom. Varna era uma colónia grega chamada Odessa, antes de ter sido conquistada pelos romanos. Como Constanta, conheceu civilizações que trabalhavam o bronze antes de muitas outras, e pude ver pedras do paleolítico médio. As termas romanas são as maiores dos Balcãs, mas sinceramente esperava um pouco mais de beleza, deu para encher a vista mas não as achei deslumbrantes. Deslumbrante é a igreja Mãe de Deus - que visão, que igreja! Sempre tinha sido da opinião que as igrejas do neoclassicismo para a frente são frouxas, pouco afirmativas, inseguras, como se pedissem licença para existir. Mantenho a mesma opinião para as católicas e as protestantes, já as ortodoxas… Vi umas brutais na Roménia, mas a igreja Mãe de Deus de Varna veste o dourado das suas cúpulas sem pedir licença: o trânsito que se afaste. E os largos vitrais azuis conjugam perfeitamente. A dita igreja foi inaugurada no final do século XIX.
Não me lembrava que na Bulgária se usava o euro. Usam as duas moedas, mas até preferem o euro, porque se bem percebi, os búlgaros têm até ao final deste ano para trocar os Lev por euros. A polícia parece séria por aqui: foram pedir alguma coisa a um jovem mal vestido que estava simplesmente sentado no banco. Tive curiosidade. Depois de momentos de alguma tensão, o jovem foi-se embora e a polícia desapareceu. Não tenho mais dados.

Não explorei muito a famosa noite de Varna. Ontem, depois de jantar, explorei as ruas do centro de Varna. Tinha bastante movimento, mas entrei apenas num único bar - o Kultura Speakeasy Bar. Servem apenas cocktails invulgares mas parecem saber o que fazem. É um bar escondido, e acho mais divertido não lhe dizer como entrar. É giro, mas não o recomendo para o viajante solitário, a não ser que queira mesmo experimentar um novo cocktail - mas para um casal, parece-me simpático.
Eu sei que falo muito de cafés e bares, mas é porque tenho o seguinte superpoder: desafio o leitor a raptar-me, colocar-me uma venda nos olhos e removê-la apenas quando eu estiver num café. Aposto consigo que sou capaz de adivinhar o país em que estou, e mesmo a cidade, caso esteja na Europa.
A noite de Varna não faz o meu género mas não nego que tem o seu charme. Mas o que dizer dessa praia no porto de Varna? O termómetro indica 10º, o céu está totalmente encoberto, choveu umas gotas há pouco. Sente-se a brisa fresca a bater no corpo. Algumas pessoas aproveitam esse início de tarde de domingo para caminhar na areia em família. Os carrosséis estão encerrados tal como a maioria dos cafés. De um lado do farol o mar negro infinito no horizonte. Três dias de viagem separam-no da Geórgia, dois de Sevastopol. Do lado leste, avisto a marinha búlgara. Três fragatas e meia, se não me engano.
O céu subitamente desfez-se. Uma bruma espessa mas pouco mais alta que uma fragata dirige-se a nós. Por cima da bruma imiscuem-se pequenas montanhas. Não tenho palavras e envio uma foto.
Tenham cuidado, queridas fragatas! Bruma a tribordo! E não relaxeis a atenção com a tribo de patos a babordo… As fragatas vão ser absorvidas pelo nevoeiro agora mesmo… 3, 2, Afinal acho que os meus olhos me enganaram: esse nevoeiro que parece mais sólido do que nuvem ainda está a quilómetros das fragatas… Vamos mas é beber café.
Estou a gostar da Bulgária. Seria uma pena não visitar outra cidade. Pelo que me têm dito, Burgas, que segue o caminho da costa, é parecido com Varna. Eu gostaria de observar as montanhas búlgaras. Sofia fica longe. Depois de conversar com Margarita, decidi partir para Plovdiv. Parto amanhã, no comboio nocturno. Gostaria de ver a paisagem mas, de manhã tenho trabalho e o comboio da tarde far-me-ia chegar demasiado tarde a Plovdiv. Tenho por isso mais um dia inteiro para aproveitar Varna.
Para não variar, acordei com as cegonhas, de manhã choveu e a temperatura avizinhava os 0º. Agora à tarde estão 2º, a diferença não é grande. O nevoeiro de ontem desapareceu mas o vento sopra forte. O meu impermeável tem dado jeito.
Encontro-me na biblioteca municipal, onde aproveito parte da tarde para escrever - e nunca vi uma biblioteca semelhante. Nem sei por onde começar. O edifício é cinzento, sem graça, claramente um legado soviético. O interior é perfeitamente estruturado, com corredores que convidam à disciplina do estudante. Tudo bem, mas onde ficam as salas de leitura? Entro numa sala e deparo-me com vários funcionários a festejar, provavelmente a despedida de um deles. Entro noutra sala, pergunto por um local onde eu possa trabalhar. Sem sucesso, haverá alguém aqui que fala inglês? Pelo menos se não deixam de olhar para mim com curiosidade, por causa das minhas bagagens, não se importam de me deixar explorar essa curiosa biblioteca que mais se parece com um arquivo de documentos. Finalmente encontro no último andar um pequeno canto que quase se enquadra no que é expectável encontrar numa biblioteca normal. Umas mesas com candeeiros, um papel com a palavra-passe do wi-fi escrita em inglês, um sofá confortável pousado sobre uma palete de madeira pintada de verde Sporting. De um verde esmeralda monocromático.
Se a luz vier a faltar, uma bicicleta de ginásio está ligada a um dispositivo que permite transformar a energia mecânica em electricidade.
Ah! ainda não tinha reparado no vitral ortodoxo mesmo à minha direita. A virgem Maria carrega o seu filho Jesus enquanto protege o leitor. Porque raio lá em baixo as pessoas estão a tirar senhas? Cá para mim, enganaram-me e estou numa loja do cidadão que por acaso tem uma biblioteca. Juro que estou numa biblioteca, há pouco, antes de encontrar esse recanto delicioso, vi uma senhora a requisitar um Schopenhauer.
Lamento a descrição exaustiva deste edifício multiuso - estou incrédulo. Um homem com uma escada de mão acaba de passar para entrar num armazém cheio de cartões com televisões. Para acompanhar a fresque religiosa, temos uma pintura claramente contemporânea, abstracto-figurativo; reconhecem-se corpos mas deformados e fragmentados. Envio uma foto. Bem-vindo à biblioteca de Varna: onde o sagrado e o profano coabitam, onde a organização e o caótico vivem no mesmo tecto, onde a ruralidade e o urbanismo se encontram. Onde é possível ler Ivan Vazov enquanto se espera para pagar a conta do gás. Obrigado. Trago na mochila umas salsichas, quem sabe ainda encontro uma cozinha.
Peguei há pouco em arquivos dos anos 70 por curiosidade, e simplesmente pensaram que eu havia de ser um investigador - quem me dera ser ladrão. Um homem, com quem há bocado troquei umas palavras, acaba de me pedir licença para buscar a garrafa de água que tinha ontem deixado escondida na véspera entre as plantas. Espere… será que… o senhor vive aqui? Vou enlouquecer se eu ficar nesta biblioteca. Não consegui perceber se a biblioteca fecha às 18h ou às 19h30 pois encontrei informações contrárias. Subitamente fez-se silêncio.
Que briol ao sair da biblioteca!
Vejo pela última vez a igreja, Mãe de Deus, antes de apanhar o comboio nocturno que me há de levar a Plovdiv. Começou a nevar.
Caminho em direção à estação de comboios e paro no primeiro café que encontro aberto pois a neve tinha começado a cobrir com uma leve camada branca as minhas duas bagagens.















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