Wednesday, 11 February 2026

Terceira etapa - Bucareste

 O comboio acompanha agora o Danúbio, do outro lado da margem está a Sérvia. Posso sair na próxima paragem, ainda não sei se quero chegar a Bucareste. Lamento não poder ver melhor a paisagem. O Danúbio marca a fronteira entre a Roménia e a Bulgária quase até ao fim, antes de despoticamente rumar a norte e inundar, já quase na Moldávia, as terras do norte-este da Roménia. Um delta com quase 5000 quilómetros quadrados. Falamos muitíssimo do Nilo, da Amazónia… mas quem fala no Danúbio? 


Creio que se o Danúbio fosse da Europa Ocidental, teríamos-lhe feito outra justiça. Nasce minguadamente na Floresta Negra alemã, cresce nas planícies da Europa central, serpenteia nos países já citados antes de finalmente desaguar na Roménia, junto à fronteira ucraniana. 


Confesso não me sentir assim tão ansioso para chegar a Bucareste. Não percebi ainda se os romenos de outras cidades têm inveja da sua capital ou se a menosprezam; poucos são os que são neutros. Quero formar a minha opinião. 



Usei a mesa para escrever, ligando o computador à ficha de electricidade, fui comendo as sandes que trazia comigo e quando o sono me ganhou deitei-me com a cabeça por cima da minha mala que carrega o computador - preocupação desnecessária mas nunca se sabe. Dormi confortavelmente. 


Eis-me finalmente em Bucareste! Está um frio de rachar os ossos. Céu azul como eu gosto, mas 8º abaixo de zero. As avenidas são largas e caóticas, posso dizer que não falta animosidade ao trânsito, ainda assim, parece-me ser tudo gente boa; isto é; dificilmente desencadeia para a violência. 


Doze horas de comboio, se contarmos com a tradicional meia hora de atraso antes do comboio chegar, e chegou a Bucareste com duas horas de atraso. Os romenos odeiam tanto o comboio deles quanto eu gosto. Bem os percebo, existe um horário mas é apenas uma previsão um tanto vaga, como antigamente se dizia que a diligência há-de demorar 12h para chegar a outra cidade. Assim funciona o comboio da Roménia. E refiro-me às linhas electrificadas! Este país é mesmo fascinante. Não ouvi ninguém queixar-se do atraso. Antes pelo contrário, os jovens corriam de um lado para outro enquanto esperavam pelo comboio, quem quisesse fumar, fumava sem se preocupar em conseguir acabar o cigarro, as pessoas de idade sentavam-se e sem resmungar encontravam algo para as entreter. Mais cedo ou mais tarde há de chegar, não falha - apenas não respeita os horários. E chegou. Apenas não percebo porquê que indicam que a hora prevista de chegada é às 6h53. Podiam arredondar para às 7h. Chegou às 9h02.





Caminho em direcção do centro mas sinto as minhas mãos a congelar. Entro num McDonalds para beber um chá, aquecer, dar uma aula, reservar um quarto de hotel e procurar uma loja onde possa comprar luvas de lã. Bem sei que para o frio há materiais melhores, mas quero umas luvas que eu goste de usar; se comprasse um par daquelas luvas térmicas, usaria-as hoje mas depois seriam apenas mais uma coisa que havia de transportar. Para quem suporta o frio, um gorro, cachecol, luvas e meias grossas (que não tenho) é tudo o que o peregrino precisa para tranquilamente viajar com temperaturas semelhantes.


Finalmente tenho novidades da minha carteira. Sempre a tinha deixado em casa da Mihaela… debaixo da cama. Caiu certamente enquanto fazia as malas. Preciso de ter mais cuidado no futuro. Enviou-ma um amigo dela por correio azul. 


Ao fim da tarde, o céu azul deixou lugar às nuvens e ao início da noite, a neve começou a cair. Vejo pela janela a neve ganhar os telhados. Que lindo! Mas devo dormir pois o meu corpo pede descanso.


Quando acordei a neve ganhava vinte centímetros nos passeios, nos tejadilhos dos carros, nas estradas; as minhas sapatilhas - não vá o leitor pensar que eu venho preparado para a neve - desapareciam quando caminhava em cima. Que caos no trânsito. Os trabalhadores municipais fazem os possíveis para remover a neve das estradas e dos passeios. Agentes de trânsito ajudam a normalizar a circulação nas artérias principais da cidade. Sinto-me como um miúdo a brincar com a neve. Mas devo voltar à razão: não é dia para grandes passeios. E até calha bem, pois tenho bastante trabalho para hoje e amanhã. 





No dia seguinte saí do hotel apenas para beber café. Deixou de nevar mas o termômetro continuava a indicar -10º e, por causa do vento, a temperatura ressentida era de -16º. 



A minha carteira ainda não chegou. Preocupa-me porque não tenho um tracking number. Posso contactar os correios se acontecer alguma coisa, mas por enquanto, apenas posso esperar. Nada, não visitei rigorosamente nada nos quase três dias que já levo em Bucareste. Não só por causa da neve e do frio, mas também porque prefiro não afastar-me — quero poder levantar a carteira assim que me avisarem que chegou.





Ahah! Um restaurante decidiu passar música de natal. Oh, que pena, cortaram. Acho que quiseram só fazer uma piada. Dada a minha reação à neve fui levado a crer que sou mais português do que francês. Embora eu tenha crescido em Paris e já tenha esquiado, tenho a sensação de nunca ter avistado tal maravilha. Tirando as crianças, devo ser o único gajo que acha piada a ver minhas calças e sapatilhas pretas carregadas de neve, que agarra neve com as mãos… Removi nas cadeiras de uma esplanada esquecida a almofada branca de neve. Com as minhas luvas não sinto o frio da neve. Contrariamente à água fria, a neve não insiste em se imiscuir por onde não foi convidada. 

Coloco a questão em termos científicos: porque será a neve o que existe de mais branco na natureza? E não terá cada flocão de neve a sua vida própria? Porque ostentam formas diferentes? Quererá o flocão de neve abraçar uma geometria que lhe permita permanecer no estado sólido por mais tempo?





Não quero filosofar para filosofar, mas sinceramente, diga-me: veja aquela almofada feita de neve que acompanha as cadeiras que foram deixadas ao ar livre. O leitor preferirá sentar-se nelas ou numa cadeira molhada?

O líquido infiltra-se em qualquer lugar. Poderá a física sem o auxílio da biologia explicar como aquele monte de neve, que parece realmente uma almofada, manter-se naquela forma coesa, tão contrária às leis da gravidade, que haviam de achatar aquele monte em vez de lhe permitir se manter unida como um paralelípido?


Hoje dormi e quando não estava a dormir estive a trabalhar. O tempo está finalmente um pouco mais ameno. E não quero sair de Bucareste com uma descrição que se limite ao fascínio que redescobri pela neve. Mas, por muito que eu goste da neve, não tenho roupa para esquiar, que é a isso que as ruas apelam. E ainda não tenho de volta a minha carteira.

 

Recomendo o hotel Michelangelo a quem quiser ficar num hotel acessível e simpático. Fica perto da Piața Romană, no norte da cidade. Quero visitar Bucareste, enquanto espero pela carteira, vou a pé até ao outro lado da cidade. Vi pela primeira vez na Roménia alguns sem-abrigo; haverá alguma capital que não os tenha? As pessoas vestem-se com estilo, as mulheres usam muita maquilhagem, mesmo as adolescentes. Não é à toa que algumas pessoas dizem de Bucareste que é a pequena Paris. Não acho que seja comparável em termos de moda, aqui é um estilo mais eslavo mas não deixa de ser urbano. 


Finalmente tenho a minha carteira! Recebi a notificação às 21h43. Preciso de voltar para o norte da cidade para a levantar num pickup point ou ponto de levantamento de encomendas. Uma vez que não tenho mais a possibilidade de apanhar um comboio para Constanta hoje, vou dormir em algum hostel nos arredores, e amanhã de manhã recupero a minha carteira que fica no caminho para a estação de comboio. Este hostel é horrível! Falo contudo do que houve de positivo: bebi umas cervejas com pessoas que vivem cá, em Bucareste. Aquele era um poliglota russo que trabalha nas obras, aquela era uma artista plástica que teve uma adolescência difícil, outro tinha sido recentemente expulso de casa pela namorada. Tudo gente com bom coração, carregavam histórias difíceis que os levavam a ficar a viver provisoriamente nesse hostel barato. Norok!





No dia seguinte, dia 5 de Fevereiro, a temperatura está um pouco acima de zero e chove um pouco. Queria ir a Brasov, para as montanhas dos Cárpatos, ou para Suceava, para conhecer um pouco da vibe do nordeste da Roménia, na fronteira com a Moldávia, ou ainda em Tulcea, para ver o delta do Danúbio.. Todavia, queria chegar a Istambul o mais rapidamente possível. Não se pode ver tudo. Constanta é uma conhecida estação balneária do Mar Negro. 





O comboio parte agora mesmo. Adeus Bucareste. Adeus neve que começou a derreter. Infelizmente para mim, estou numa espécie de comboio rápido, o equivalente a um Intercidades português. Partiu com 5 minutos de atraso… É suposto haver wi-fi mas não funciona. O comboio está quase cheio. Constanta é a última estação, presumo que a maioria das pessoas deve sair antes. Veremos. 

Antes de entrar no comboio, falei com uma família romena que ia para norte, para os lados de Suceava, terra de um famoso poeta romeno.


Oh, como eu gostaria de visitar a Moldávia romena. Talvez fosse se eu não tivesse ficado tanto tempo em Bucareste por causa da minha carteira. Paciência, assim o destino o quis. Há-de ser por uma boa razão. 




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