Thursday, 12 March 2026

Etapa 8 - primeiros passos na Ásia - entre Istambul e Kapadokia

 Na parte asiática de Istambul, ninguém parecia precisar de mim. Não havia turistas, não havia vendedores insistentes, nem havia tantos monumentos a pedir contemplação. Apenas trânsito, centros comerciais e pessoas ocupadas a viver a sua vida.


Conheço Nápoles. Em teoria, nenhuma cidade europeia respeita menos o código da estrada. Mas Istambul decidiu competir. Qual delas desrespeita melhor as regras? Aqui, as motos usam capacete e também não circulam nos passeios — a não ser para ultrapassar. Ainda assim, ganha Nápoles. Para uma pessoa como eu, que prefere o bom senso às regras seguidas cegamente, é perfeito. Sinto-me perfeitamente turco a atravessar a passadeira. Mas qual passadeira? Vou mas é pela estrada, como aqui se faz. Quando vier um carro, recuo para o passeio; ou então o carro desvia-se. Se não puder desviar-se, buzina. Não há drama. É simplesmente a normalidade. Adoro.


Bem sei que as grandes cidades raramente refletem o interior do país. Aqui as pessoas são muito cosmopolitas. Mesmo na parte asiática — que eu imaginava mais conservadora — a maioria das mulheres veste-se à ocidental. Poucas são as que usam véu, muitas pintam os lábios ou fumam tranquilamente nas esplanadas. Por falar em fumar… 


          — Cavalheiro, não leve a mal a minha pergunta, o senhor está numa loja, é permitido fumar? 

          — A porta está aberta, o ar circula, respondeu-me ele. 


Curiosamente, vejo mais mulheres a usar véu em Paris ou Londres do que em Istambul. Aqui, cada muçulmano é livre de fazer ou não o ramadão; cada mulher é livre de usar saia ou de cobrir os cabelos. 


 Mustafa Kemal a cuidar das crianças (:


Em vão procuro remediar o problema do meu telemóvel — desde que deixei a Europa, fiquei sem dados móveis. Desisto; hei de resolver isto mais tarde. Preciso de um centro comercial para trabalhar: escolho o Tepe Nautilus, por causa do nome, sou um fã de Jules Verne, e fica suficientemente no interior. Para entrar no centro comercial, passei por um daqueles pórticos típicos do aeroporto e a máquina apitou. O segurança chamou então um cidadão aleatório que falava inglês. Esse perguntou-me se trazia na minha mala grande uma faca. Respondi que sim, uma pequenina. Enquanto abria a mochila para a mostrar, o segurança disse-me que não era necessário e que podia entrar. 


Pela primeira vez desde que estou em Istambul não vejo turistas. E, no entanto, quanta gente! Julgava eu que apesar de ser sábado, o centro comercial estaria bastante vazio - pois o ramadão começou esta semana. Enganei-me, a única diferença com o lado ocidental é a ausência de turistas. O que melhora imediatamente a comida. Comi o meu primeiro kebab. Levava um leve molho picante, nada excessivo. A razão da qualidade era simples: a carne sabia a carne. Cebola cortada muito fina com pão artesanal. Tudo isso por um preço razoável. 


Não consigo decidir-me para onde ir. Caminho aleatoriamente pelas ruas, antes de me sentar num pequeno jardim de bairro para tomar uma decisão. Vou directo para a Capadócia. Esta noite, num autocarro nocturno. No entanto, a estação fica longe. Apanho então um transporte público para ir até à estação de Dudullu. Julguei que a paragem de autocarro coincidisse com o terminal rodoviário. Será que é mesmo aqui? É que se for, não tenho como passar mais de duas horas sem fazer nada, à beira de uma autoestrada com um frio de rachar os ossos. E começa a chover, pouco, porém o suficiente para procurar abrigo. Não pode ser aqui que o meu autocarro passa. Ou será que é? Não pode ser, ainda assim, porque raio a estação diz Dudullu Terminal, se é apenas uma estação comum, um apeadeiro? A estação que eu procuro deve estar escondida algures. Perguntar, sim, mas a quem? Já é quase meia-noite, e estou nos subúrbios de Istambul, entre edifícios altos, lojas fechadas e uma autoestrada impossível de cruzar. Calma, tenho tempo. Caminho, em busca de alguma estação de serviço, um café, alguns jovens na rua, qualquer coisa. Nada. Procuro outra vez o nome da estação e consta que estou a 5 km do lugar correto. Imagine o meu desespero, caso eu não tivesse ainda duas horas para matar. Não tenho contudo a certeza que a estação seja mesmo naquele lugar, parece-me absurdo. Dois Dudullu Terminal distantes de uma hora de caminhada? Finalmente encontro uns jovens. Não fazem a mais pequena ideia. Um taxista! Não fala inglês. Que caminho mais horrível: à minha esquerda um edifício militar protegido por arame farpado, à minha direita montes de lixo abandonado. O caminho em si tem alguma lama e pedras irregulares. Eis-me novamente numa zona mais urbana, com estradas largas e sem passeio. Arrependo-me de dizer que gosto de uma cidade que não precisa de passadeira. Continua a ser verdade de dia, mas de noite, com carros a andar a maluca em artérias da cidade, como fazer? Não tenho muita pressa. Todavia, se eu ficar parado vou congelar. Resolvo o problema com pequenas corridas para atravessar as estradas com trânsito. Na verdade sinto-me excitado com a situação, e até gostaria de continuar a alimentar a tensão, mas a verdade é a seguinte: se o frio fosse insuportável? Apanhava um uber. Se eu perdesse o autocarro? Passava a noite num hotel e no dia seguinte ia para onde queria. 

Felizmente para mim e infelizmente para o que eu gostaria de escrever a situação não tinha nada de dramático. A estação é aquela, tenho quase a certeza. E se não for, ainda terei tempo de apanhar um uber para ir nem que seja ao outro lado de Istambul. 

Cheguei. É a estação certa. Cheira a pão fresco; há aqui vida. Se tivesse fome, havia um fast-food mesmo ao lado, tenho sede: compro água. 

Tenho tempo para escrever isso tudo. E para dormir um pouco antes do autocarro chegar.





Dormi surpreendentemente bem — se é que é possível dormir bem num autocarro. Parece-me porém que devo informar que os autocarros nocturnos na Turquia têm apenas três lugares por cada fila: 1+2. Ou seja, tinha a certeza que não ia ter ninguém ao meu lado. Acordei definitivamente por volta das 10h, já depois de ter passado Ankara, e prestei finalmente atenção à paisagem. Ficava menos verde em cada hora que passava. Paulatinamente, vamos entrando nas montanhas da Turquia interior. A paisagem começa a perder cor. O verde dissolve-se pouco a pouco, como se alguém estivesse a apagar o mundo conhecido com uma borracha seca. A terra torna-se pó, depois pedra, depois um relevo que já não parece terrestre. Valas profundas, colinas recortadas, camadas de cores sobrepostas como páginas mal coladas de um livro antigo. Ao longe, cúpulas nevadas interrompem o horizonte.




Não sei exactamente quando entrámos na Capadócia, houve um momento em que deixei de procurar cidades. Comecei apenas a olhar. Havia qualquer coisa de lunar naquele silêncio mineral, como se o autocarro estivesse a atravessar uma memória anterior à história. O autocarro deixou-me em Göreme por volta das 13h. Deixo-me perder pelas ruas históricas da aldeia. Essas estátuas de soldados são da dinastia Han, se não estou em erro. Haverá aqui alguma relação histórica? Não, é apenas um restaurante chinês contemporâneo.






Ao sul de onde estou temos várias igrejas, incluindo a famosa Dark Church. As críticas e as imagens dizem-me que vale a pena. É a tradução em turco de Karanlık Kilise. A Igreja Negra… qual será a tua história? Vamos lá. O exterior não se parece com uma igreja. Ah, é preciso pagar para entrar. E há fila. Deve mesmo valer a pena. Se eu tiver oportunidade, voltarei de noite para ilegalmente observar a igreja sem ter ninguém a atrapalhar. Voltemos para Göreme. Depois de uma merecida refeição no Burger King, vou ao meu hotel. Gostaria de fazer já uma caminhada mas infelizmente preciso de trabalhar. Fica para amanhã.



Contrariamente ao que eu pensava antes de chegar à Turquia, não há nenhuma cidade grande na Capadócia. A região histórica é muito mais vasta do que esse pequeno quadrado que cativa turistas de todo o mundo. Não é nenhuma região administrativa turca. 










Depois de ter saído de Göreme para ver algumas casas autênticas, vou até Uchisar, uma outra vila da Capadócia, onde espero encontrar-me com Vahdi Ölmez, um mercador de tapetes que nasceu por ali, amigo de um casal turco que conheci no centro comercial em Istambul. Vou pela estrada, farei os percursos de trekking amanhã. Bem, que raio de rochas são essas - percebo melhor porque tanta gente vem cá parar. 







Chego em Üçhisar. É mais divertido procurar por Vahdi Ölmez do que ligar-lhe. Encontrei uma loja de tapetes. Pergunto por ele. Não era essa a loja mas visivelmente trata-se de alguém conhecido e muito apreciado em Üçhisar. Encontro-o na loja dele. Apesar de não nos conhecermos, sentimos uma simpatia imediata. Ofereceu-me uma cerveja e falámos em francês. Vahdi Ölmez nasceu e cresceu em Üçhisar, numa altura em que o turismo na região era residual. Viveu uns anos em Paris, onde o irmão dele tem outra loja de tapetes. Nos anos oitenta o turismo mudou a vida das pessoas. Hoje em dia, já praticamente ninguém mora na Capadócia. Os tapetes de Vahdi Ölmez são vendidos a turistas e alguns para embaixadas. A maioria são feitos em lã, outros em pele… Os turistas vêm ver rochas. Nós víamos abrigo. Falou-me de diversos locais com encanto, sempre lamentando que eu ficava apenas alguns dias, pois há tanto para ver nesses cerca de 400 quilómetros quadrados. Não podia ter conhecido melhor guia turístico da Capadócia. Tenho comigo todas as informações que precisava acerca da região. Agora, volto para Göreme. Amanhã será dia de caminhada na natureza.












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