Não sei se haverá algum parvo, para além de mim, a fazer a Love Valley com bagagens.
Explico-me: decidi que hoje ia dormir em Üçhisar. A cidade fica uns quilómetros a sul de Göreme. Que sentido faria ir até lá de transportes só para deixar as malas e depois fazer a caminhada que pretendia fazer. Bem sei que de Göreme para Üçhisar a rota sobe, o desnível da Love Valley é superior a trezentos metros. Tanto melhor, quero fazer desporto. Depois de um honroso pequeno-almoço com café, uma laranja e gözleme — adoro tanto essa espécie de panqueca recheada de queijo — dirijo-me pela estrada nacional, larga e com pouco trânsito, para norte, até ao início da Love Valley. Não vejo indicações claras, decido portanto explorar primeiro a zona antes de entrar no trilho. Trago comigo um mapa de papel. Não me parece que esteja no caminho certo. Volto para trás e encontro um local que me esclarece sobre o ponto de partida. Vamos lá. A terra poeirenta e cinzenta abre caminho entre as ervas secas. O trilho sobe paulatinamente. Arbustos com um número impressionante de ramos finos tentam sobreviver ao inverno. Vários apresentam uma tonalidade roxa. Olho para trás e reparo na estrada nacional já longe e abaixo de mim. Continuo. À minha esquerda a terra permanece verde. Encontro finalmente um carro turístico, parado onde a estrada de terra termina. Aproveito para confirmar que estou na rota pretendida. A partir de agora não há mais indicações.
As formas absurdas das rochas não são obra do acaso. A explicação começa há cerca de 10 milhões de anos, no Mioceno superior, quando a actividade vulcânica depositou toneladas de cinzas. No Quaternário, o resfriamento abriu fendas, permitindo infiltração de água que acelerou a erosão nos estratos moles, criando vales e depressões. Sem uma capa de basalto para proteger, os tufos desfizeram-se em planícies poeirentas ou abismos fundos; onde o basalto resistiu, formaram-se chaminés saídas de um conto de fadas.
Desde sempre, as pessoas construíram nessas rochas relativamente macias as suas casas. Ainda hoje há quem viva nelas! Embora a maioria seja habitada por turistas.
Pelo que vejo, o caminho pedestre segue a rota de um riacho que contribui para a erosão dessas rochas. No verão certamente será seco, mas no mês de Fevereiro é impossível de seguir o trilho sem ter botas de borracha. Não tem mais de três metros de largura. Quando é possível, dou uns pequenos saltos entre poças lamacentas, inexplicavelmente rijas. As minhas sapatilhas, adequadas para estiradas na natureza, mas apenas em percursos fáceis, deram uma resposta satisfatória, muito embora teria sido preferível ir com botas mais apropriadas. Quando a água é demasiado profunda, subo para fora do riacho e invento um caminho para acompanhar o leito do mesmo. Mais uma casa cavada na rocha… Espera, essa parece-me ter sido recentemente abandonada. Vou visitá-la. Entro como se entrasse num pequeno estúdio desprovido de porta de entrada. Está abandonada provavelmente há anos. Que gira. É um pouco pequena para deixar de ser nómade, ainda assim, dá perfeitamente para instalar uma pequena cozinha e um cubículo para tomar duche. Se por azar eu me perder, poderei passar a noite nessa casa sem me preocupar em pedir licença ao dono. Encontro outras mais à frente mas nenhuma tão abandonada como a primeira. Se eu não tivesse já ouvido histórias acerca da Capadócia, não teria acreditado que essas rochas eram naturais. Algumas parecem menires, outras pequenas pirâmides naturais, outras ainda, peço desculpa, mas passam bem por caralhos gigantes.
A cor predominante dessas rochas, na Love Valley ou Vale do Amor, é o branco. Ainda assim as rochas têm camadas amarelas, outras rosas… E esse pó cinzento que parece areia… Não tinha ideia que a Lua ficava na Turquia… Não existem animais. Mamíferos, pelo menos. O meu ouvido capta por vezes a presença do que suponho ser serpentes.
Prossigo o meu trajecto pelos riachos secos, rastejo para entrar em túneis esculpidos pela natureza, faço agachamentos para passar pelas passagens mais estreitas fechados pelos ramos, galgo encostas íngremes… Já sei de há muito tempo que a vista do topo de uma colina é diferente se a subirmos de carro ou de bicicleta. Penso que nunca tinha visto uma paisagem tão sublime.
Ao entardecer, o sol baixo banha as rochas num dourado quente, realçando sombras profundas nas depressões e texturas rugosas onde o vento lapidou fendas minúsculas. É um cenário primordial, onde a terra parece pulsar em formas orgânicas e desafiadoras.
Recordo-me de ter cruzado apenas um grupo de chineses. Eu confio bastante na minha capacidade física e resistência mental. Sou, contudo, uma pessoa urbana, sem grande experiência para esse tipo de aventuras. Confesso que a meio do percurso, arrependi-me de não ter apanhado um táxi para ir ao hotel deixar as malas, mas agora que finalmente cheguei, penso que fiz bem. Amanhã tenho outro dia de caminhada. Desta vez, deixarei as malas no hotel.
No dia seguinte a temperatura está abaixo de zero, está prevista alguma neve para depois do meio-dia. Se já tinha gostado do meu hotel em Göreme, fico sem palavras para o de Üçhisar. Não se enquadra muito no propósito da minha viagem ficar num hotel quase luxuoso. Não gosto de cerimônias, de educação exagerada. Percebi que apesar do turismo, a vida dos hotéis é relativamente difícil: a concorrência é grande e a época baixa é quase tão fraca como nas estações balneárias. Depois de um pequeno-almoço fantástico, com queijo, omelete, fruta, gözleme, bolos, aproveito a manhã para me aventurar no Vale dos Pombos (ou Pigeon Valley).
O Vale dos Pombos abre-se lentamente. No início, limita-se a uma caminhada nessa planície lunar. Insisto no lunar apesar de soar cliché. Não vejo como descrever de forma mais realista as paisagens da Capadócia. Por fim, a planície deixa lugar às encostas, esculpidas pelo vento e pela paciência do tempo, que guardam o mesmo silêncio que os vulcões antigos deixaram ao adormecer. Distingue-se ainda melhor as camadas geológicas de cada era gravada na pedra como se fosse um arco-íris.
As pequenas portas escavadas nas rochas, que outrora abrigaram pombos, contam uma história simples e engenhosa: os habitantes antigos criaram refúgios para as aves, cujo esterco enriquecia as vinhas. Hoje, esses abrigos esvaziados permanecem como testemunhos em miniatura da relação íntima entre o homem e a terra.
A cada curva, o vale transforma-se: ora refúgio, ora mirante, ora passagem, ora esverdeado, ora amarelado. Dir-se-ia que o próprio tempo repousou. O vento, sempre presente, soprava com força entre as escassas figueiras e as oliveiras. Tive de ter cautela para não cair num vale. Embora, sinceramente, as rochas da Capadócia sejam tão moles que se algum dia tivesse de cair num vale, os meus ossos escolheriam que fosse aqui. Começa a nevar mas avisto finalmente a vila de Göreme ao longe.
o castelo de Uchisar, escondido pela neblina
Escusado será dizer que não encontrei nenhum turista no caminho. Cheguei à hora da reza — o melodioso cântico do adhan, ao início da tarde. Que confusão! Tanta gente a refugiar-se nos hotéis, nas lojas e nos cafés por causa da tempestade de neve — um autêntico blizzard! Realmente, acho que deveria fazer o mesmo: páro para beber café. Percebo que a tempestade não vai ceder nas próximas horas. De nada me serve ficar aqui, assim sendo. Volto a Üçhisar pela estrada para ganhar o meu hotel.
O vento batia com violência, a neve ganhava uma direcção quase horizontal. A cada dois minutos, precisava de remover a neve do meu impermeável. As minhas sapatilhas ficaram brancas, os meus pés, gelados e húmidos. A protecção das luvas era insuficiente para as minhas mãos que preferiam esconder-se nos bolsos das minhas calças. Aproveitei cada centímetro do meu cachecol para proteger a totalidade do meu pescoço. Por baixo do meu impermeável, apenas uma camisola de manga curta. Perdi o meu sweat na Bulgária e só agora sinto a falta dela. Minto, não sinto assim tanto frio. A temperatura andará ligeiramente abaixo de 0º. O que dá a sensação de frio é o vento que sopra com força e a neve que no espaço de minutos altera a paisagem. De facto, tenho frio nos pés — apesar dos meus dois pares de meias de verão. Quando se tem os pés frios, o único remédio é caminhar rápido sem deixar de aproveitar a vista. E tomar um duche quando chegar ao hotel. Pouco antes de Üçhisar um carro parou, perguntou-me se eu estava bem e se eu queria boleia. Agradeci, ainda assim recusei. Já deixei excessivamente claro em outros capítulos o quanto eu gosto de neve. Apenas sorria, parava por vezes para observar a paleta de cores das rochas da Capadócia desaparecer, deixando lugar a uma camada uniformemente branca.
No dia seguinte o frio era igual ao do dia anterior e continuava a nevar, embora sem tempestade. Limitei-me a dar um pequeno passeio em Üçhisar. Gostaria de ter explorado as outras valley, mas a natureza recusou. O frio é demasiado para mim. E mesmo que não fosse… É demasiado perigoso seguir um trilho que já desapareceu sob a neve. Há outras rotas que eu adorava explorar mas preciso de ser razoável.
Dois dias depois, o clima persistia igual. Saí do hotel apenas à noite para passear um pouco e observar as montanhas. Preciso de prosseguir a minha viagem. Comprei já o bilhete de autocarro para Diyarbakir, no Curdistão turco. Hoje a temperatura está suportável, todavia os caminhos continuam impraticáveis. Conheci há pouco a proprietária do hotel. Deixou-me na estação de autocarro de Üçhisar.



































































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