Thursday, 2 April 2026

Etapa 9 - rumo ao Curdistão!


Entro num pequeno autocarro para Nevşehir, cidade de tamanho médio, conhecida por ser um refúgio dos cristãos quando o império romano era ainda pagão. Aproveito para pedir um gözleme num bazar antes de entrar no expresso rodoviário - rumo ao Curdistão.



Entro em Kayseri, a antiga Cesareia. A sul da cidade impõe-se o gigante Monte Erciyes. Ei! Porque raio em vinte passageiros as mulheres são apenas uma? À minha frente, três jovens tornavam impossível o silêncio; atrás de mim, um homem via vídeos no telemóvel sem fones. No meio disso tudo a polícia cortou o trânsito. Ninguém sabe o que se passa. O autocarro volta a arrancar. Ah, mas não anda sem combustível! Mais uma paragem. Três horas e apenas cem quilómetros. Mudei de lugar, como se isso resolvesse alguma coisa.


Com o avançar das horas, o ambiente mudou: as cidades tornaram-se mais raras, os lenços mais frequentes, o inglês inexistente. Já não estávamos na Turquia cosmopolita.


Ao amanhecer, chegámos a Diyarbakir. O autocarro parou, e só então, ao arrancar de novo, vi as fortificações fantásticas - parecem muralhas infinitas de um castelo europeu. Apesar de serem bizantinas, árabes e otomanas, soam-me estranhamente europeias. São as segundas mais extensas do mundo! 

Pouco antes de chegar a Mardin, a paisagem rompe de repente. Os Montes Taurus acabam sem transição. Mardin — a fortaleza, como desde sempre é chamada — ergue-se em calcário com as costas nas montanhas e os olhos pousados na planície fértil, sem casas nem árvores que interrompam a monotonia. Não existem obstáculos. Juro que, se a água fosse verde, teria confundido essa paisagem com um oceano. A norte, as montanhas íngremes da Anatólia, a sul, a Mesopotâmia.

 

Em Mardin, as ruas não seguem uma lógica evidente. Sobem, descem, estreitam-se até obrigarem dois corpos a negociar a passagem. As casas, de pedra clara, reflectem a luz de uma forma quase agressiva ao meio-dia, e tornam-se douradas ao entardecer. De certos pontos, basta virar a cabeça para sul para ver a Mesopotâmia.

O hostel onde fiquei — em regime de voluntariado — é simples mas carismático. O meu papel era mínimo: das oito da noite à meia-noite, dar as boas-vindas, responder a perguntas simples, indicar um restaurante, um caminho. O cantinho adequado ao aventureiro: simples, humano, sem horários rígidos.

No bairro, as crianças brincam. Os adolescentes encontram refúgios para namorar longe dos olhares dos pais. Ao domingo, as famílias passeiam como em qualquer outra cidade.


No bazar, joguei xadrez com Sabri — alfarrabista que acabara de escrever uma tese sobre Foucault. Antes disso, tinha-o visto jogar backgammon contra Huseyin com uma velocidade estonteante; mais rápido do que eu quando jogo xadrez em blitz. Depois, comprei uma boneca para duas crianças sírias. 

Na manhã do dia seguinte, explorei mais ruelas da cidade. Olho para o relógio, e lembro-me subitamente que tenho um aluno à minha espera. Entrei no hotel Maridin Hotel e perguntei se podia usar o wi-fi para dar uma aula. Aceitaram sem qualquer problema. Pedi um chá para não estar ali apenas a ocupar espaço. Quando tentei pagar, recusaram. Não houve grande explicação — apenas um gesto simples que encerrou o assunto.

Ao fim do dia, ouve-se o chamamento para a oração. Faz parte do ritmo da cidade.

Dizem-me que Gaziantep tem a melhor culinária de toda a Turquia. Por enquanto, sei apenas que gosto muito do que como.



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